1.08.2011
Rede Sociopata
Fui surpreendido por uma notícia devastadora: na noite de Natal uma senhora inglesa de 47 anos escreveu em sua página no Facebook que acabara de tomar todas suas pílulas e em breve estaria morta - "I took all my pills be dead soon" - no entanto os mais de 1.400 amigos que estavam online no momento em que esta mensagem foi deixada, nada fizeram para ao menos questionar ou dissuadir o intento que foi levado a cabo; sim, a senhora faleceu sem ter ninguém que lhe prestasse atenção.
Esta história pode lhe parecer um tanto absurda ou dramática e é, porém é importante pensarmos um pouco mais a este respeito e analisarmos com cautela as informações contidas nesse episódio nas quais esbarramos cotidianamente em nossas vidas.
Comecemos por falar do fundador e criador do Facebook, Mark Zuckenberg. Um estudante que numa noite de rejeição e vingança resolveu criar um pequeno site - Hot or Not - no qual seus companheiros universitários votavam entre duas fotos de garotas elegendo quem era a mais atraente, criando assim um sistema de ranking da beleza. Fato é que Mark não era o cara mais popular de Harvard, universidade em que estudava à época da criação do Facebook em meio a uma controversa história de alegação de plágio da qual um brasileiro faz parte - Eduardo Saverin, paulistano que após processo judicial foi restituído a condição de co-fundador do site. O Facebook nasceu de uma vontade de ir à forra, que aos poucos foi ganhando seu contorno de aproximação das pessoas em detrimento daquele sentimento presente em sua origem. Um site de relacionamento criado por um cara que aparentemente não se relacionava, não fazia parte de grupos que desenvolvesse atividades de socialização, ao contrário, por ser estudante de T.I. seu mundo era restrito e fechado ao seus pares de estudo.
No Brasil, vivemos sob a influência do ainda poderoso Orkut, que há mais de sete anos é o site de relacionamento que ocupa a liderança por aqui, diferente do mundo todo que debandou para o site de Mark. E essa liderança foi tão importante que obrigou o Google, empresa detentora do Orkut, a transferir a administração do Orkut para nosso país.
Mas na rede a suplantação é questão de tempo e logo o Orkut foi perdendo uma importante fatia para seu concorrente, o Facebook, muito mais em razão da falta de controle e baixa qualidade das interações do que pela funcionalidade do serviço.
Foi no Orkut que aprendemos a considerar a importância dos internautas com maiores números de "seguidores", termo firmado com o advento do Twitter, outra rede que hoje está em controversa queda de audiência. Aprendemos com o Orkut que quanto maior o número de amigos que alguém possua, maior será a relevância dessa pessoa em relação à sua rede de amigos e maior projeção irá ganhar despertando o desejo em outras pessoas de se tornarem seus seguidores, muitas vezes com o intuito de usufruírem das benesses dessa pseudo-fama que nada de real lhes garante.
E por que então entramos em redes sociais? Por que interagirmos com outras pessoas? Eis aí uma discussão que poderia nos deixar horas e dias tratando a respeito, entretanto quero lembrar que essa sede de fama, reconhecimento, seguidores ficou muito mais em evidência a partir da criação do programa televisivo feito por John Endemol, o Big Brother. Pois é... poderá até discordar, mas foi lá no ano 2000 que nasceu em nós o descontrole da fama, quando vimos um grupo de jovens belos, com corpos esculturais, idéias malucas, liberados para tudo, com tesão, liberalidade e libertinagem de princípios, já que o programa fomentava o jogo de poder, a desconstrução dos valores éticos e morais vendidos em troca de uma quantia em dinheiro e que com o passar de suas edições foi criando na alma brasileira o sentimento de impunidade do ato de vingança, tão condenado pelos filósofos, normatização da amoralidade e comportamento antiético em favor do entretenimento e prazer do povo, enfim, uma cópia barata da vida real, que desenssinava nosso povo enquanto víamos em Brasília os mesmos desmandos sem nada podermos fazer devido à passividade a que nos acostumamos.
Sem nos perder do foco da discussão, o que quero dizer com isso é que fomos nutrindo em nossos corações o desejo de fama, reconhecimento, vultuosidade e importância. Seguíamos o maior número de pessoas possíveis em nossos Twitters (ainda fazemos isso), buscamos mais e mais amigos em nossos Orkuts e Facebooks e passamos horas, horas e horas cuidando de fazendas, cafés, aquários virtuais para dizer o mínimo.
Recentemente houve a notícia de que na Coréia do Sul, uma criança morreu por inanição devido à falta de cuidado de sua mãe que passava mais tempo com sua "Fazendinha Feliz" do que com seu filho de carne e osso. Houve também um outro caso em que um casal estava se divorciando e a esposa pediu ao juiz que arbitrasse em favor do "dinheirinho" que o casal havia acumulado nesses jogos virtuais durante o tempo de estiveram juntos. Quer dizer, a esposa queria um divórcio com divisão de bens... virtuais. Consegue racionalizar isso? Como é possível tamanha inversão de valores?
Aí então estamos em nosso perfil no Orkut ou Facebook e nos deparamos com pessoas que defendem adicionar às suas redes apenas as pessoas que lhes são conhecidas.
Ora, se você se dispõe a criar um perfil, ou um avatar que é uma projeção minimizada de sua pessoa e personalidade, em um desses "sites de relacionamento" supõe-se que você irá relacionar-se e interagir com as pessoas que também fazem parte dessa rede. Entretanto há os desavisados que não entendem direito ou não possuem a capacidade para interpretar o objetivo final das redes, que é promover maior socialização entre você, seus amigos e os amigos dos seus amigos.
Temos um bom exemplo com o Twitter, rede muito aclamada há alguns anos e que hoje nos mostra sua insapiência. Se você faz parte dessa rede, como eu, sabe que há milhares de pessoa que simplesmente colecionam outras pessoas e de nada tiram proveito; não conhecem, não interagem e se o fazem é com limitação de tempo e conteúdo e quase nunca respondem às DMs, RTs de seus seguidores. Se é assim, qual o motivo de ter tantos seguidores? Simplesmente para saber que há milhares de pessoas que aparentemente estão sedentas de uma palavra sua como se você fosse uma espécie de Messias prometido? Erro!
É preciso agregar valor à rede de relacionamento, e por valor entenda-se conhecer outras pessoas, interagir com elas. Afinal são as pessoas que tornam nossas vidas cheias de alegria e experiências e quanto maior o vertedouro de experiências e contatos, maior quantidade de energia será produzida em seu redor, o que atrairá ainda mais pessoas para perto de você, mas agora com real desejo de compartilharem contigo suas opiniões, desejos, conselhos.
Isso, aliás, é um conselho supremo dos filósofos: aprender e apreender através da observação do outro, minimizando a possibilidade da ocorrência de erros em suas ações já que terá a vida e os outros companheiros por mestre de ensino; ou seja, além de dinamizar sua vida, poderá evitar a incorrência em erros pelos quais outras pessoas já passaram e que poderão lhe poupar determinadas experiências. Para isso é importante amar às pessoas, amar ao próximo e não buscar nele um objeto de coleção que poderá ser trocado, usado, renegado, conforme sua conveniência.
Voltemos ao início: uma senhora morreu por não ter sido interpelada por qualquer pessoa de sua rede de relacionamento que realmente se interessasse por ela. Uma criança morreu por ter menos valor que um jogo virtual. Um casal se separou e em disputa estavam moedas imaginárias.
Não sou contra as redes, pelo contrário, sou aliás um heavy-user delas e é exatamente por usá-las demais que tenho percebido a perda dos valores morais e éticos por parte de um grande número de usuários. As pessoas não se preocupam em agregar valor às suas redes, compartilhando informações interresantes sobre arte, cultura, lazer; elas se sentem como celebridades em entrevistas eternas falando sobre o que comeram, o que fizeram no cabelo, como a irmã do primo do vizinho da rua de baixo é chata, entre outras barbaridades que não valorizam absolutamente nada a pessoa algoz dos comentários.
Venho então me lembrar de um outro fenômeno tecnológico que poderá nos ensinar uma importante lição. Lembram do Tamagochi, o bichinho virtual? Pois é, antigo não é mesmo (1996)? Ele nos ensina que temos que cuidar pra não matar e não deixar morrer. Temos que alimentar nossas amizades, temos que banhá-las de vez em quando, limpar a sujeira, excluir comentários maldosos e rancorosos, temos que brindar e brincar, temos que acalentar, temos que ajudar a despertar, temos que promover a procriação e ensinamento. Enfim... temos, na vida real, tudo o que muitos estão legando apenas ao virtual, ou correremos o risco de acabarmos mortos, seja pelas pílulas elétricas que descarregaram ou por outras que quimicamente nos consumirão.
Para finalizar: até mesmo Alice descobriu que no país das maravilhas há mais absurdos e horrores que no mundo real.
Escolha onde viver e por fim seja feliz, uma felicidade real, sem logoff, apenas um restart!
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