As Dionisianas
Um certo amigo me veio falar das belezas da Grécia. Das suas encantadores histórias, do seu legado histórico, de como teve a sabedoria por proteção e os deuses por objetivo.
Faláva-me em como era belo e poético o estudo sobre as saturnálias, os festivais, os jogos olímpicos e se derretia ao pensar na possibilidade de ter podido viver à época em que viver era sobretudo um grandioso desafio de bravura e heroísmo em que se reservava a atenção e forças para ao menos buscar alguma igualdade com os grandes vultos narrado por Homero e seus pares.
Esse bom amigo ainda não havia percebido que receberamos dos gregos a incumbência de dar continuidade a essas fantasias fantásticas da realidade contemporânea.
- E o que leva-o a pensar tal?
- Pois veja por si mesmo.
- Que ver?
- As areias, pois nelas estão os segredos.
- De quais falas
- Falo dos helênicos segredos, dos vindos das montanhas elêusis. Quer nota?
- Dê-as a mim.
Pois se observas os costumes das mulheres de Atenas saberá que elas se enlaçam em fina estampa, em trabalhos artísticos. Se dão ao prazer do bem-cuidar, do bom trato pessoal, do asseio enquanto que, aos homens é dado o trabalho de pensar ou de lutar, não que estes últimos não o façam, mas suas ligações são menos complexas e mais existenciais. Recorrem a seus músculos para garantir às belas atenienses que lhes dêem filhos fortes e deidificados. Estes homens se vergam a trabalhar seus corpos desnudos sob o sol apolônio e reclamam para si uma parcela desse brilho cálido. Enquanto isso, nas tabernas, nos banhos, nos butequins alguns outros não tão bem favorecidos e aprazíveis às vistas das cocotes, se dão a discutir o curso da sociedade e labutam e pelejam pelo crescimento da Pólis.
- Ainda não compreendi essa Grécia carioca.
- Mire à sua esquerda. Que vês?
- Sim, uma bela moça.
- Cujos cabelos são da cor do cobre.
- Em mínimos trajes, há que se dizer.
- Posta ao sol com seus protetores ladeando a beleza oceânica separando-a dos mortais.
Pra lá dos montes de Maratona mulheres como esta se encontram virgens em homenagem aos deuses. Essas se dão ao trabalho de embelezar a obra dos senhores do universo. Foram por eles postas aqui para nos atormentar e dar-nos o gosto da beleza imortal. Nós, os não favorecidos.
Trocaram as muitas roupas por aquelas que se fazem imaginar seu desaparecimento, fazendo-nos viver entre a loucura do ataque animal e brutal e a eufórica histeria de apenas observar e mergulhar no prazer dos sentidos, ouvindo o ar, degustando o mar, tocando as areias e sentindo seu cheiro de pureza.
Aquela seda branca é hoje o fim das ondas, o seu rebentar. O Olimpo é a areia clara, é este monte aplainado e posto entre o infinito azul e o irracional mundo verde a que se desbravar e donde vivem uns brutos homens que lá estão desde sempre, segundo os livros.
- Chego a compreensão, meu bom amigo.
- Vês então?
O que se chamava de festas de Baco e Dionísio, Vênus e Afrodite, hoje chama-se "carnaval". E na via de sublimação multidões celestes mostram cores e coros acompanhados de ritmistas que batem o som do coração humano.
- Pois estás certo!
Vênus e Afrodite se põem aos pés de Poseidon, a Ye dos negros africanos. E essas deusas são encantadoras e talvez por isso perigosas para a continuidade da vida, pois tiram dos homens a razão e os coagem a loucuras inenarráveis.
E não há um carioca que não se entregue ao prazer do vinho cevado, ao Olimpo copacabânico, ipanêmico, lebloniano, urcaico.
Guanabara é o nome do sofismo. É a terra da fertilidade, do mistério, da doçura, a Canaã hebréia, donde emana leite e mel. Salomão banhou-se aqui e desta terra levou sua centena de esposas e cuncubinas.
O pecado tem pernas e vive por aí a desfila-las por entre as curvas dos corpos e morros, entre a beleza selvagem de folhas e frutos dessa cornucópia em forma de cidade e o espaço etéreo do azul liquido e intangível.
O carioca é o legado greco-atlântico, filho dos mais profundos mistérios dos que se tornaram história e dos que narraram os mistérios.
- Foste ao Louvre?
- Infelizmente não.
- E por que se há de ir?
As estátuas que lá se postam estáticas sob as candeias artificiais, aqui animam-se e dão-se ao cotidiano dos homens.
- Vês?
São as três belas retratadas por aquele famoso pintor.
- São bem mais interresantes que na moldura!
- De certo, pois lá estavam nuas ao artista e aqui se cobrem para delírio da populaça.
Hermes logo alí, Artêmis saindo da botica, Hércules com a prancha sob os braços, Cérbero e Hades correndo pela orla, o menor com sua coleira rubra e seu dono com seus óculos esculos e a tatuagem do cão raivoso sob o ombro e algumas outras marcas de guerra.
- Tens toda razão. O Rio está para a Grécia como o girino para o sapo. São a mesma coisa em essência, ditos no início, meio e fim. Cá como lá há heróis, batalhas, guerras, escravos, barcos, mares, deidades, liras, frutos proibidos, olhares furtivos, sonhos e delírios.
- Seria esse o motivo das Helenas do novelista?
11.24.2010
11.16.2010
Não era só uma festa, era a celebração pela expulsão dos Orleans e Bragança, era o rejubilar da vida da nova democracia, era o espetacular mundo das perfeições. Não era uma festa.
Era a reunião dos mais belos espécimes da prole sexuada que davam-se a liberdade de expressarem-se com total liberdade e paixão, sem os receios comuns e diários do julgamento de suas ações, com o peso de suas reputações ilibadas, que agora se maculavam nas águas das lagoas artificiais e suas ondinas masculinas que dançavam em trajes de banho, verdadeiras sereias encantando pescadores e os levando o mundo subaquático de Atlântida perdida - reencontrada.
Não era uma festa. Eram centenas de corpos que se espremiam, se davam, se bebiam, se alimentavam uns dos outros sem que nenhum destes perecessem nessa simbiose. Eram unitariamente todos juntos, um corpo só, levados pelas liras e cornucópias de alguns seres especiais capazes de alquimicamente transformarem os elementos para a produção da pedra filosofal. E enquanto sublimavam e ebuliam, as pequenas células dançantes se agitavam hora sob o calor, hora sob o frio, nunca parando, sempre em contínuo e eterno movimento.
Não era uma festa, era um desejo de carne, de lascívia, de paixão, de cópula, de entremeio, de ser um, com quantos fosse possível. Era Baco, Dionísio... era o Olimpo. Não, não era uma festa.
E quando sob nossas cabeças explodiam as cores e as formas que do céu negro desciam, Deus, em sua sublime presença, deu-nos um sopro de sua criação, de sua plenitude, e tudo se fez perfeito, tudo uniu-se. Não havia mais o caos, o choque e a harmonia se fez, e um grito de júbilo ecoou por entre as matas dizendo: amo viver a vida e estar vivo para amar demais.
Era mais que apenas uma festa e alguns celulares desligados!
11.13.2010
O BURRO
Quando Deus criou o universo e pensou no trabalho que lhe daria pôr tudo em ordem, tomou para si uma peça de barro e fez-se o burro.
O quadrúpede honesto, boa-praça, consentidor, resiliente, que a ninguém reclama direitos, sabendo apenas que tem deveres a cumprir e se não os fizer não terá o maço de capim prometido como paga pelos préstimos que, na verdade, lhe são impostos mais como favores imerecidos do que outra coisa.
O burrico, esse gente boa, é mais que a mola, é a pata propulsora do progresso. Foi por ele que se fez andar os primeiros carros, talvez antes mesmo dos cavalos, esses incomuns e revoltosos equinos. Foi o burrico que fez o Brasil existir. Em seu lombo subiu-se às serras, carregou-se os ouros das Gerais, retirou-se da mata as penas e peças em embuia, mogno... Ele não é dado a heroísmos; os pais da pátria, os libertadores, os magnatas dos tempos não desembainharam suas espadas à destra de um destes resistentes; o cavalo era mais imperioso, era um Bentley quando nem estes existiam, enquanto que o pequenino deu origem ao fusca: útil até que se tenha oportunidade de algo melhor, sendo posto de lado o esquecerão como se esquece um problema e dir-se-á "nele não monto".
Ah essa interjeição, esse adjetivo, essa exclamação. Esse burro. É uma instituição dos homens, vindo nos ensinar que animal que não se rebela e mostra força torna-se escravo de sua própria fama. Veja se fizeram o mesmo com o boi? Até mesmo as aranhas possuem mais honras que os burros por viverem estas em cantos escuros, longe dos olhares, a criar arquitetura magistral, a espreitar a oportunidade de matar as moscas que nos incomodam, de se meterem por entre os livros e por lá quedarem lendo artigos e roteiros em linguas diversas, enquanto o burro, analfabeto que é, só serve para trazer e levar galões de leite que a senhora vaca forçozamente cedeu ao senhorio do sítio, pela qual mais se compadece o dono pois é dela que se lhe retira o alimento, o alento, o aleitamento quando Don'Ana se torna mais seca que o copo d'águ'ardente na conversa do bar. Enquanto isso, fica ali o burro a espera do trabalho, o primeiro chouffer do mundo.
O burro é sem estudo, sem discernimento, pois se tivesse o mínimo de instrução não aceitaria essa sina. É o iletrado, é o órfão tendo por pai-ausente um livreto com infinitos verbetes. É a curiosidade dos passantes, quando se morre um. Morreu um burro e é nesta curiosidade que se recordam dele, enquanto se devaneia e dá-se o pensamento à morte do Bezerra.
Ah, burro. Feito tu, não existe outro, meu caro. Quem aceitaria suas agrúrias por uma porção de capim rasteiro? Mas Deus deu-lhe a contrapartida a ti e teus parentes jumentos. Pôs-los no átrio de nascimento de nosso senhor Jesus. Gabe-se por isso, burrico velho: onde estava a força do cavalo, a beleza do beija-flor, a sabedoria da coruja, a esperteza dos ratos, a malandragem dos macacos, a leveza dos peixes, a candura dos cisnes, o esplendor dos pavões, a amistosidade dos cães? Foste tu e teu primo que carregaram no lombo a salvação ressurreta daquele que, como tu, foi levado à baila quando viam nele desprezo, vergonha; contudo tens teu lugar na história das gentes.
No Brasil o grito mudo do Ipiranga surgiu de seus pares. Pedro Américo inventou a mentira, mas corremos em teu socorro, em tua justiça, burro nacional.
E tenha por mérito que mais burros que tu, somos nós que não aguentamos metade do teu trabalho, reclamamos muito mais do que os teus grunhidos, uivos e silvos.
Burro que é burro, só pensa e não trabalha e se o trabalho de fato dignifica o homem, então és o melhor exemplar do que deverías ser, burro-homem, homo non sapiens.
Olhai-me os olhos e diz: quando? Reclama teu trono, burro! O posto é teu! Foi contigo a tropa, o carregamento, o moinho. És burro ou o quê? És homem ou saco de batatas? Bem... não falemos das batatas. Machado deu-as aos vencedores, pois que fique assim.
11.12.2010
Ele, um rapaz de vinte e poucos anos, tão poucos passados os seus dezoito anos. Ela, uma jovenzinha de olha irriquieto, interrogador e nervoso a perscrutar a todas as letras e desenhos comerciais.
Ele assanhava a juventude com aquele seu boné virado para trás e ainda com as calças largas e desgrenhadas, tão longe do perfil paterno tradicional cultivado por ternos, escritórios e um ar bonaxão dos que já conquistaram casa, mulher e filhos. Este tinha apenas o último dos troféus e contudo o mais trabalhoso também.
Digo-lhes isto pois soube eu que um primo de vinte e um anos está para contrair noivado com uma garota - cujo paradeiro desconheço completamente - o que me faz pensar nas loucuras dessa juventude ansiosa pelo retorno dos valores e consentimentos de uns trinta ou quarenta anos atrás quando os jovens se davam em casamento ainda com o frescor da juventude a correr-lhes o rosto.
Admiro-me profundamente da coragem que esta juventude atual tem em se lançar ao precipício que é constituir família. Não que o desmereça ou lhe tire seu valor, entretanto, eles ainda cheiram a fraldas e querer para sí os grilhões da maturidade - loucura tipicamente juvenil.
Assim sendo, estamos corroborando com a formação de uma sociedade adultamente infantilizada na qual os comportamentos são cooptados dos mais jovens aos não tão jovens assim, embora se vistam da mesma forma, agindo da mesma forma, fraseando os mesmos vocábulos pueris.
Família deixou de ser a principal instituição social e virou um valor, um status social através do qual a juventude sem identidade se manifesta mostrando-se "valorosa o suficiente" cuja capacidade de manutenção passa pela formação, geração, manutenção de uma família, desestruturadamente que seja.
Se se formam as novas famílias com base nas duas gerações anteriores, em seus valores, temorizo-me e me ponho receoso do que nos sobrevirá, embora eu confie na natureza inteligente da evolução controlada pelo inconsciente coletivo.
Mas dõe muito ver pós-adolescentes carregando crianças em seus braços, formando familias com base em baixos valores, usando a família e os filhos como muleta social.
Ele assanhava a juventude com aquele seu boné virado para trás e ainda com as calças largas e desgrenhadas, tão longe do perfil paterno tradicional cultivado por ternos, escritórios e um ar bonaxão dos que já conquistaram casa, mulher e filhos. Este tinha apenas o último dos troféus e contudo o mais trabalhoso também.
Digo-lhes isto pois soube eu que um primo de vinte e um anos está para contrair noivado com uma garota - cujo paradeiro desconheço completamente - o que me faz pensar nas loucuras dessa juventude ansiosa pelo retorno dos valores e consentimentos de uns trinta ou quarenta anos atrás quando os jovens se davam em casamento ainda com o frescor da juventude a correr-lhes o rosto.
Admiro-me profundamente da coragem que esta juventude atual tem em se lançar ao precipício que é constituir família. Não que o desmereça ou lhe tire seu valor, entretanto, eles ainda cheiram a fraldas e querer para sí os grilhões da maturidade - loucura tipicamente juvenil.
Assim sendo, estamos corroborando com a formação de uma sociedade adultamente infantilizada na qual os comportamentos são cooptados dos mais jovens aos não tão jovens assim, embora se vistam da mesma forma, agindo da mesma forma, fraseando os mesmos vocábulos pueris.
Família deixou de ser a principal instituição social e virou um valor, um status social através do qual a juventude sem identidade se manifesta mostrando-se "valorosa o suficiente" cuja capacidade de manutenção passa pela formação, geração, manutenção de uma família, desestruturadamente que seja.
Se se formam as novas famílias com base nas duas gerações anteriores, em seus valores, temorizo-me e me ponho receoso do que nos sobrevirá, embora eu confie na natureza inteligente da evolução controlada pelo inconsciente coletivo.
Mas dõe muito ver pós-adolescentes carregando crianças em seus braços, formando familias com base em baixos valores, usando a família e os filhos como muleta social.
11.03.2010
Ambos se sentiam culpados pelo ocorrido, com a diferença que ela o culpava e ele também tomava para sí toda a culpa de ambos e de nenhum. Ela falava dele como se fosse o único responsável e ele, comicerado, consentia no erro de julgamento.
Ela sabia que preferia por-lhe a culpa já que seria a pessoa mais fácil e mais longe de sí mesma que poderia levar consigo o peso da desgraça. Ele, por tanto ouvir muitos comentarem sobre seus delitos, preferiu crer que nada se havia perdido, pois não aceitara conscientemente sua culpa, o que lhe doía ainda mais já que a falta de respostas consegue ser mais dilacerante do que as negações ou afirmativas.
Doía-lhe e ninguém sabia o quanto e em que grau de suportabilidade.
Por vezes passamos por situações semelhantes.
Quero falar sobre algo que me tem ocorrido com uma certa frequência: o des-empenho.
Quando você ouve de alguém que está em seu alvo pretenso de convívio, supomos com isso que a pessoa querirá compartilhar contigo os momentos que tiver oportunidade certo? Bem, é o que deveria ser, porém tenho visto que que há ressalvas sobre isso.
Concordo - pois já escrevi um texto anterior defendendo essa posição - que é preciso que quando as pessoas sem põem a relacionar-se, tenham em mente que deve haver mais divisões do que somas. Não sou adepto do comum "você e eu somos um"; aposto que você e eu somos dois e não um, o que faria com que alguém assumisse o controle, como uma carta de regência.
Acontece que, ao que me parece, as pessoas andam um tanto mais individualistas à medida que evoluem. Usam palavras de forma pensada e calculada, objetivando resultados propositais, entretanto, não se deixam ser controladas por essas mesmas palavras. Dizem sofrer das mazelas modernas - oriundas da individualização social - porém se afastam da realidade compartilhada. Eu mesmo perdi as contas de quantas pessoas passaram por mim dizendo quererem um relacionamento estável em cujos moldes eu mesmo me aplainava e que mais tarde se mostraram verdadeiros precipícios rochosos em cujas encostas não há muitas formas de vidas a não ser líquens escorredios e nutridos de um orvalho esparço e inconstante. Outras pessoas, contudo, mostraram-se ainda piores ou melhores: diziam não poder fazer a escolha em função de haver outros candidatos a entrevistas o que me põe a pensar se as pessoas querem alguém ou algo, dadas as inúmeras especificações a que estes recorrem: cor, tamanho, volume, preço, utilidade, praticidade. As pessoas não podem ser medidas nestes termos e quando penso nisso fico deveras desesperançoso com o futuro das relações humanas.
É evidente que isso não é geral. Há neste país de cento e noventa milhões de sentimentais, uns e outros que fazem diferente.
Já fui chamado para a pauta do dia e relegado ao final das votações sem ter atingido quorum mínimo para abertura das discussões. Sentí-me oposicionista e desgraçado pelo governo que me dera voto, e agora, veto.
- Queres que vá?
- Sim, me apraz tua presença.
- Irei então. Está bem assim? ... ei? podeis confirmar?...
- Que queres tu?
- Querer é o que quero.
- Pois bem, se queres, tem. Tome o que seja teu por direito.
- Venha!
- Quando?
- Não sei.
- Ora! Como não sabes se a pouco disseste que querias?
- Sim, quero, porém não sei ...
- E o que não sabes?
- Sei que quero cuidar das minhas coisas.
- E não sou eu uma destas coisas tuas?
- Que queres?
- Ser amado!
- E por que não o és?
- Por me faltar a quem me ame.
- De modo algum, pois disse-lhe que terieis em minha pessoa tal preocupação.
- Contudo estava sob júdice e não poderia tomar qualquer partido sem um veredicto definitivo, consumado pela última instância e maior competência para tal.
- E que queres agora?
- Que me ames ?
- Agora que tuas falhas superam tuas qualidades?
- Pois não podes amar-me sabendo dos meus erros?
- Poderia, se ainda houvesse o encanto.
- E que passou com ele?
- Desfez-se qual bruma pálida ante o calor dos raios matinais.
Das cartas me desfiz, da mesa de jogo me levantei pois no tempo em que pus-me a apostar, danei-me a perder todas as rodadas. Achava que estivesse ganhando quando via algumas cartas melhores vindo para minhas mãos, mas não percebi que eram cartas de blefe.
Creio que seja desta forma que os jogadores tem se tratado: uns e outros disputando quem consegue chegar primeiro ao outro lado da linha ainda a salvo sem que se perca uma parcela de si mesmos nesta troca obrigatória onde, os que como eu, sempre acabam feridos e com partes em falta.
Cansei-me das gentes que falam muito e pouco fazem ou quase nada. Cansei-me de me permitir iludir. Cansei-me, não do ser humano mas apenas do ser que esqueceu-se do humano que lhe acompanha a descrição.
Todos querem as mesmas coisas e reclamam das mesmas coisas pois fazem as mesmas coisas atingindo assim, os mesmos resultados. Compreendo que a mudança é dolorosa e postergável, mas nunca ineficiente e sempre criativa e revigorante.
Disse, numa outra oportunidade, que sou intenso e não gosto de fazer algo protegido por armaduras. Arranco minhas roupas e me ponho desnudo frente ao campo de batalha para que se veja que ali está alguém disposto a verter seu sangue em defesa de seus objetivos reais. É imprescindível sair deste casulo em que muitos se metem. Assumir-se larvar e dar ao tempo o tempo necessário para que as adversidades lhe conceda asas para que ultrapasse as barreiras mais comuns.
Queres estimular um relacionamento? Saiba que pedaços de você se perderão pelo caminho.
Não quer dilacerar-se? Não invente uma relação e conviva no mundo circunspecto de si mesmo e se resigne de sua solidão auto-infligida.
No mais... livrai-me de suas preces reticentes sobre a queda da solidão. A escada está posta. Se for de seu agrado, suba-a.
No momento em que voltou a si encontrou-se sozinho, em completo abandono, tendo sido abandonado por si mesmo, por sua consciência, por sua família, por sua história. Seu legado seriam apenas as lágrimas que desde sempre estão consigo e hoje rolam em outra realidade.
O que precisava era apenas de uma observação, uma tutoria, um acompanhamento. Precisava de um colo, um credo, uma reza.
Chorou aguda e profundamente enquanto ela, a seu lado sem saber o que fazer, via-o e o espiava em favor.
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