
O VELHO VALE DOS SONHOS
Era tudo rotina e somente rotina. Eram os padrões, de comportamento, de atitudes, de respostas, de conquistas, os quais jão não tinham mais aquele brilho fulgoroso de outrora. Era tudo o mesmo, o continuado mesmo.
Eu caminhava por uma estrada de terra, terra marrom-claro, um tom de sabiá se fazia presente no ar como ondas de um rádio que certamente não encontraria ali. Mas, não me prendia a esse gorjeio ou aos gracejos que fazia quando passava em seus vôos rasantes em frente a mim. Minha cabeça pendia à frente, olhos fixos nos pequenos pontos de barro no chão enquanto o pensamento se elevava acima das nuvens e embarcava numa onda de ventos e correntes de ar e se deixava levar para longe, largando no caminho um corpo cheio de anseios enquanto ele, o pensamento, ia se banhar n’algum riacho do interior do mundo.
Na primeira pedra pensei em desistir. Aceitei a derrota ali mesmo. Coloquei as mãos na cintura, busquei as ultimas forças para puxar a cabeça para trás, olhei para o céu, inspirei profundamente como se estivesse engolindo pelas narinas toda a poeira do caminho. Inflei o peito e aquele pequeno rádio com asas desenhou arcos sob minha cabeça e falava em silvos e assovios que eu não podia compreender. A linguagem da liberdade, as palavras do ser livre eram estranhas a mim; nenhuma delas eu compreendi, mas era possivel perceber o que o conjunto dos sons e desenhos procuravam me mostrar. Algo começou a acontecer.
Eu não tinha muitos motivos para acreditar no caminho, no entorno, no retorno, em nada. As pessoas as quais eu tinha em alta estima me pregaram grandes peças. Desde criança eu me sentia um tanto rejeitado por todos. Era como se o mundo todo conspirasse contra mim. Eu era o anti-modelo da vida social; não tinha os jeitos, as manias, dos comuns; me viam como sendo de outro lugar, como na história do “Patinho Feio” e nós dóis, o patinho e eu, éramos alvo de xingamentos, chacotas, piadas e brincadeiras que nos acertavam nas pernas e nos lançavam ao chão e se ouvia o estrondo de nossos corpos batento contra as rochas. Vários pensamentos me roubavam a paz. Pensava que seria melhor sumir dali já que meus pares não se dispunham a compreender a minha realidade peculiar e parece-me que se aproveitam disso para honrar suas ancestralidades e como machos num bando de fêmeas, zombavam dos mais fracos para com isso reivindicar para si próprios a força da comunidade no reconhecimento de que eles sim eram os superiores e estariam prontos a diminuir qualquer um que pudesse ameaçar o bem-estar da coletividade.
Como foi sofrido. Quantos abusos, quantos limites ultrapassados, quantos pedidos de socorro me silenciaram. E a imagem da rejeição começa a ganhar forma e corpo: o meu.
Pais? Ah, essa era uma outra história daquelas. Não sei quem foram, quem eram ou quem são. Conheci certas instituições familiares, mas nunca encontrei nestas alguém que pudesse me prestar os favores, pequenos sim, que a mim eram grandes demais para buscar sozinho. Eu me sentia amorosamente abandonado por aqueles que deveriam me proteger. Eles tinham vergonha por serem guardiões de um jarro quebrado. O que deveria ser um vistoso aparato de decoração havia sido colocado sob a pilha empoeirada de utensílios que não tinham mais serventia. E neste meu canto fui me resignando.
Diariamente outros tantos objetos eram somados ao já vasto arsenal de itens inúteis e todos nós nos consolávamos e buscávamos algum alento na irmandade. Alguns porém, em derradeiro grito de esperança e liberdade subiam ao alto da pilha de despojos e se lançavam ao chão partindo-se em pedaços incontáveis que seriam reunidos por uma vassoura e uma pá de lixo, o que nos fazia pensar que no mais das vezes éramos apenas um monte de lixo que ainda não havia tomado consciencia de sua realidade. Éramos um lixo que o tempo se encarregaria de quebrar em pedaços pequenos o suficiente para que coubéssemos no pequeno cesto. Não tinhamos futuro. O que viamos era apenas um passado com nova roupagem e os mesmos acontecimentos paulatinamente.
Era tudo rotina e apenas a rotina. Diariamente rotineira constância.
Algo começou a mudar em mim. Sempre que um novo item era lançado na pilha os mais antigos iam alcançando altura e de lá o chão ia se tornando cada dia mais distante, mais propício à queda, à quebra. Pensei não ser esse o fim que pensei para mim. Não sei ao certo qual o fim certo que pensei, mas certamente me lançar ao chão não era algo que eu havia listado dentre as opções possiveis.
Coloquei as mãos na cintura, resgatei as últimas forças, levantei a cabeça, inspirei fundo em meio àquela empoeirado quarto, olhos fechados, estufei o peito e um gemido profundo e continuo, rotineiro talvez, ouvi-se ecoar. Aos poucos os olhos se abriam sem encontrar morada. Um som de rádio, uma cantoria desconcertada dizia: “Bom te ver”. Olhei para a pilha de lixo sob meus pés e só via os mesmos de sempre, virei-me para a direita e nada encontrei, para esquerda e nada ainda. Novamente desolado, outro insucesso.
“Bom te ver”. Ora, de onde vinha, quem dizia. Olhei ao redor novamente. Uma novidade luminosa se descortinou em frente como num passe de mágica. Eu nunca havia reparado numa claraboia que coroava o ambiente em que vivi durante anos.
“Bom te ver”. Apertei os olhos, aguçando o foco para além do vidro semi-fosco, beijado pela velhice e mesmice dos pensamentos. “Bom te ver, Bom te ver”.
- Quem diz isso? -- Eu perguntava já esperando pela resposta humilhante de alguém.
“Bom te ver, Bom te ver”
- Oi, quem está aí? Alguém!
Ninguém me respondia.
“Bom te ver, Bom te ver”
Passei a mão no vidro, em circulos excêntricos. Um punho forte esmurrou me a cara. Levei os braços para me proteger de novos golpes; os olhos ainda doiam e se inchavam. A coisa continuava a repetir “bom te ver”. Percebi um vulto escuro à direita e no ímpeto de satisfazer a curiosidade me esqueci de que havia um vidro e bati a cabeça quando tentei olhar para mais além. Sentindo a dor, pus as mãos na cabeça e as esfreguei sob o couro. Por um breve tempo me esqueci da pilha, me esqueci dos cacos, me esqueci do lixo, da poeira, do vidro. Me esqueci de tudo e apenas ressoava o bom te ver.
As pernas fraquejaram, os joelhos vascilaram e meus olhos se arregalaram quando vi dois tridentes baterem contra o vitral do mundo exterior. Um tridente de aros finos que deram golpes leves sob o vidro. Já não era mais a dor, o lixo, era o medo que me abraçava, me puxava pelos braços para baixo. Um pedaço dos destroços do ultimo lançado rolou monte abaixo. Agora sim eu me encontrava doido: rolar o monte, me lançar ao chão ou ser consumido pelo monstro sob o vidro.
O som tomou conta do ambiente de forma estrondosa e forte fazendo tudo tremer e balançar “Bom te ver, Bom te ver”.
- Ei, por favor, mais baixo.
- Bom te ver, bom te ver.
- Ei, não está escutando? Mais baixo por favor. Meus ouvidos doem.
- Bom te ver, bom te ver.
- Acho que até você já não se ouve. Deve ter ficado surdo com esse som todo.
- Bom te ver, bom te ver.
- Agora você já está irritando! Por favor, abaixe esse volume, oras.
- Bom te ver, bom...
- CHEGA! – gritei.
- Credo! Como você é irritadiço!
- Ah, agora meu ouve?
- Ouve quem?
- Além de surdo, você é cego também?
Meu Deus, que olhos eram aqueles? Uma cabeça grande abriu caminho por entre a luminosidade e em meio aos dois tridentes um grande borrão se espremeu.
- Tem alguém aí?
- Lógico que tem? Você não está vendo?
- Quem está falando? – a coisa lá fora batia os tridentes no vidro, o borrão se mexia de um lado para outro sob a estrutura de cobre que sustentava a abóboda.
- Sou eu quem fala. Quem é você?
-“Bom te ver, Bom te ver”!
Levei as mãos aos ouvidos e as pressionei para minizar os ruidoso dizer.
- Ei, será que você ai pode falar mais baixo? Isso machuca sabia.
- O que machuca? Bom te ver, bom te ver!
- Ai, ai... Isso machuca. Esse seu barulho.
- Não sei quem é você aí em baixo,mas é a primeira coisa me que diz que isso dói.
- Que bom que alguém lhe disse essa verdade então, não é?
- Que verdade?
- Que sua voz dói.
- “Bom te ver, bom te ver”
- Ei!
- O que foi?
- Você não entende? O que há com você?
- Bom te ver! Você é um chato sabia? Bom te ver!
- Me diga uma novidade! – eu não conhecia o que falava comigo, mas me parecia aquilo que estava além já tinha buscado informações a meu respeito.
- O dia está lindo! Não... Isso não é novidade. Todos os dias são lindos.
- Que dia?
- Ora, esse dia! Não vê?
- Não vejo o quê?
- Eu sou surda e você é cego! Bom te ver! Ra ra ra!
- Vamos parando por ai. Eu já não aguento mais isso.
- Quem é você?
- Bom te ver, Bom te ver!
- Pára com isso!
- Com isso? Você me faz uma pergunta, eu te respondo e me manda parár? Não te entendo? Você é lelé da cuca?
- Você também acha que sou doido? – mais uma vez fui pego de surpreso pelo conhecimento que se ia além de mim.
- Eu sou o Bom te ver! Quem é você?
- Eu? Eu sou...
- Quem é você, oras?
- Eu sou... não sei quem sou!
- Hã? Você é “Não sei quem sou”? Nunca te ouvi cantar aqui fora.
- Aqui fora? Fora onde?
- Ah! Já sei. Você é um desses que são presos desde quando era ovo ainda?
- Ovo? Eu? Acho que você é que é o Lelé da Cuca! Ra ra ra!
- Eu já disse, sou o Bom te ver, Bom te ver!
- E fala alto você, não é?
- Você está preso aí? Quais suas cores? Eu sou todo marrom como a terra das palmeiras onde cantam os sabiás!
- Que cores? O que são palmeiras e sabiás?
- Nossa! A coisa é mais complicada do que eu achava. Eles fizeram lavagem cerebral em você.
- Eles quem?
- Eles, oras. Os grandões que entram na mata. Sabe, eu quase já fui presa por eles. Eles também sabem o “Bom te ver”. Um tio meu foi preso por eles e desde entao nunca mais o ouvimos cantar.
- De quem você está falando?
- Do irmão da minha mãe. Você não sabe o que é um tio? Oh, me desculpe, você não tem mãe, é isso?
- Tenho sim – disse em tom tristonho – e sei o que é um tio. Estou perguntando quem são os grandrões de quem você falou.
- Os grandões... Oras são os grandões. Eles atendem por varios cantos. Ainda não aprendi nenhum. São tantos e tão variados. Não sei como eles se reconhecem. Embora cada qual tenha cores diferentes e o que é estranho... Eles não tem penas, sabia?
- Penas?
- Ora, você é estranho, Não sei quem sou! Bom te ver!
- O que é você?
- Sou o que sou, não sei quem sou! E você, o que é?
- Não sei quem sou!
- Eu sei, Não sei quem sou, Bom te ver!
- Ei, você está me confundindo.
- Bom te ver, é quem sou. É assim que me chamam. É assim que nos chamam.
- Bom te ver?
- Sim. Bom te ver, Bom te ver!
- Meus ouvidos!
- Desculpa, Bom te ver diz a tudo Bom te ver. Todos ouvem Bom te ver!
- Bom te ver!
- Isso, bom te ver, não sei quem sou!
Bom te ver, bom te ver!
Bom te ver, para tudo o que se vê
Bom te ver, que a tudo vê
Bom, para ver tudo
Bom e tudo bom, e tudo que se vê é bom
(... CONTINUA)