A Sombra. A LamaHoje sinto profunda amargura em minha alma e a sinto não sem motivo.
Talvez possamos começar a entender esses sentimentos e voltarmos ao passado e encontrarmos as raízes de tantos males.
A amargura é um processo de ansiedade reprimida em função de algo feito ou não, alguma ação concretizada ou não que nossa alma julgou ser um contraponto em nossa trajetória pela vida. Esse contraponto aconteceu por termos a liberdade de escolhermos nossos caminhos e nossas andanças.
Encontrei Ronaldo no intuito de nos entretermos por certo tempo até que tudo estivesse terminado e ambos satisfeitos. O que ocorreu foi que novamente entrei pela porta larga e vi aquele grande horizonte a espera de quem lhe desbravasse e por isso me coloquei na brecha para ser usado, mas o passo seguinte seria usar, não de forma desmedida e deslavada e sim de modo leal, Cortez e cordial, em que o objeto de uso se quisesse dar a uso por vontade própria. Iniciei o processo de persuasão encantadora, assim lhe nomeei, no momento em que pus os pés no cume da montanha. Não fiz falsas promessas, não jurei por nada, não ardi situação alguma, fui sempre eu mesmo em todos os momentos, porém ressaltando o lado eu menos eu e mais o Ronaldo; ele teria de ver em mim uma imagem no espelho tão realmente sua que não saberia distinguir as diferenças e quando as percebesse já teria sido tarde demais. E foi tarde tão quanto, não em minha medida, portanto não tão quanto eu gostaria que fosse.
Saímos à boemia e nos encontramos com tantos outros que intencionavam os mesmos prazeres compartilhados que nós. Nossas trocas duravam horas, quatro, cinco, seis, às vezes até oito horas ininterruptas, e se acabavam com o nascer do sol que a tudo ilumina. Encontrei outro companheiro de viagem e demos inicio ao processo de comunicação não verbal; ele encostou sua mão na minha mão, enquanto seus olhos percorriam meu corpo e invadindo minha mente, massageando meu ego; estávamos completamente inebriados pelos desejos, pelas ânsias, pelas sombras que não percebemos que estávamos sendo vistos, ele, pelo algoz que lhe esperava de foice na mão, e eu que estava sob a supervisão não revelada e muito menos intencionada ou requerida, do Ronaldo.
Após as alucinações ele decretou sua partida, no que consenti. Talvez lhe tenha provocado maior desamparo por dar-lhe a liberdade que ele não queria. As pessoas tem prazer em serem prisioneiras, mas como nasci livre e tenho a alma liberta, a todos também libertarei de tais cadeias de engano e falsidade mesmo sabendo que os detentos são burros, ignorantes e arrogantes, burros por quererem e não saberem, ignorantes por saberem e não quererem e arrogantes por não saberem e não quererem. Por estes me compadeço, nestes me comprazo. Um dia decidem ir, como o Ronaldo, sem rumo ou destino certo em busca de outra prisão que lhes traga o prazer da dúvida já que a liberdade revelada pela verdade dos fatores lhes fora demasiadamente dolorosa. Diz que conhecendo-se a verdade, há liberdade, mas não creio que alguém tenha nos questionado se queríamos ser libertos dos nossos estados atuais.
Ele se foi e eu fiquei com o sentimento de maior prazer por saber que minha maturidade estava a um patamar mais elevado que a dele que era magistrado, escolado, diplomado e eu de forma simples e sagaz o desfiz em pedaços e o empurrei para debaixo do tapete. Talvez esta seja a razão de sua atitude extremada: teve consciência do quão destrutível eram seus argumentos e que, feitos em pedaços sob o tapete, sempre haveria alguém a lhe pisar a cabeça.
MAIS SOMBRAS
Deu-se novo fato no enredo já tão engendrado de fatos. Tarcísio havia terminado nosso antigo relacionamento havia dois anos e desde então sentíamos um certo desconforto ao comentar sobre nossos atuais casos amorosos. Era um assunto tabu, no qual tínhamos medo de entrar qual ninho de cobras. Temíamos a porta a se fechar com o outro quando seu coração estivesse ocupado por outra pessoa que não fossemos nós. E ter que aceitar que nossa cama estava sendo profanada, que os lençóis que um dia abrigaram nossas histórias de carinho, hoje estavam sendo levados por outro alguém, que o amor que nos amava pertence a outra pessoa que nos usurpa a dignidade de dizer-nos “amor”, e dá uma vontade de perguntar quem lhe deu permissão para chamar de amor aquele que ainda residente dentro de nós; é como se houvesse uma invasão de terras em que os ocupantes estivessem requerendo o uso-capião da propriedade, mas eu ainda moro nela. Até que eu consiga me desfazer da velha casinha, da imagem do riacho, do cheiro da relva, até que nudez e rudeza da cidade me entrenhe os olhos, não poderei esquecer jamais meu melhor e único porto seguro. E se assim não proceder, estou pronto a pedir reintegração de posse.
É tão difícil te ver nos braços de outro alguém, é tão doloroso compreender que as juras se mostraram mentirosas e voláteis. É dura realidade. Doi fundo na minha alma, que posso ouvi-la chorar e prantear o amor perdido.
A LAMA
Encontrei dois que fizessem o serviço de reintegração de posse, temporário, é verdade, porém é terreno. Nos deixávamos levar pelo balanço dos braços, pelo valsar dos quadris. Fomos um, fomos único. E descontei minhas resignações e me desfiz em pedaços e me pus sob o tapete, e fui pisoteado por mim mesmo. E doía, mas eu tinha meus comprimidos para dor de cabeça. Dei-me completamente ao desprazer em virtude dos pré-conceitos originados noutro lugar. Creio que foi de lá que trouxe a imundícia que hoje vejo e me enlaço. Aos que me viram à época, lhes pareço paradoxal: até ontem eu mesmo aumentava o número das fileiras do que cantam e bradam pela suavidade da vida, pela harmoniosa convivência da consciência e a realidade, sendo que neste momento, preso a outras doses, me encanto com o submundo dos pensamentos. Tenho encontrado nisso novos prazeres, novas hordas orgásticas, novos compromissos da carne, novos pontos G´s e tantas outras siglas que sinonimizam o libídico prazer dos laboratórios.
E chafurdei na lama, me envolvi até o pescoço, e não quis sair da areia movediça e me debatia para que a descida fosse apressada pelos movimentos bruscos, e disse “não” à vida, e disse “venha nós o vosso reino”, que se dissolva a minha vontade, que eu voe da terra para o céu.
Tudo o que eu julgava ser errado, tenho me colocado à prova e os tenho provado. Tudo em que não tinha valia, me vejo lhes dando valor. O que eu não concebia veio à luz. É uma lama que não sabia haver em mim com tamanha volatilidade. Não conhecia meu camaleônico. Nem tinha conhecimento do poder de transformação e fuga.
A SOMBRA
Estávamos conversando sobre como algumas pessoas nos viam de forma pejorativa e pesarosa. Ele dizia que não tinha a obrigação de agradar a todas as pessoas, enquanto eu lhe retorquia que o fato de não haver tal obrigação não lhe conferia o direito de simplesmente não ser agradável; sua obrigação não era “agradar”, era ser agradável, bem quisto.
Começamos a falar sobre como as pessoas nos apontavam o dedo imputando a culpa ou o erro; como elas não faziam questão de serem simplesmente “agradáveis”, precisavam também serem sinceras e a sinceridade é uma outra forma de arrogância onde só importa o que se sente e se pensa, e aliás se diz muito sobre o universo que circunda esses sentimentos sem que se leve em consideração que existe outra pessoa.
Entendíamos claramente que a realidade que vejo no outro é um reflexo do que tenho dentro de mim; é como uma máquina pré-programada para reconhecer em ações de outras máquinas os “inputs” que trazem também dentro de si embora não os utilize com freqüência. Foi daí que certas atitudes começaram a esclarecer meus pensamentos, e cada vez que falávamos, mais nos aprofundávamos no assunto sem que soubéssemos de onde vinha tamanha rapidez de compreensão e autoridade. Competia a cada um de nós que fizemos uma auto-análise a fim de confirmar certas proposições.
Quando ele me disse que a Amanda lhe havia desfeito num dado momento, perguntei qual o sentimento que tal atitude lhe provocou, ao que me disse que não houve maior dessabor a não ser o sentimento de inconformidade e incomodidade. Disse-lhe então que o grande segredo das coisas consiste não em estarmos diferentes, e sim em estando em igualdade, estabelecermos nossa diferença sem que outros sintam a presença da “inconformidade”, já que tudo que é novo, não harmônico, questionável quanto ao status quo, é uma arma na mão dos que almejam a manutenção da realidade ultima. Meu segredo seria se fazer de bobo, não para enganar, mas para não molestar. Ser diferente dói; não no que faz a diferença; nos que são iguais, lhes dói e fere alma, pois se questionam a todo momento o motivo da evolução de alguns enquanto tantos outros permanecem na mesma roda da espiral a que alguns chamam carma, eterno retorno, praga, sei lá... há tantos nomes indizíveis para isso.
A minha sombra então passou a tornar-se minha potência. O que tenho em mim e não vejo, é o que me fortalece. Este é o ingrediente do meu super-homem. Minha sombra é minha vontade de potência. Pois a sombra nos incomoda doravante. Ela nos faz sair da zona de conforto da claridade e nos obrigado a usar outros sentidos de modo a nos movimentarmos num mundo totalmente desconhecido e provavelmente inóspito. Muitos vêem a sombra como um refúgio dos fracos, como uma malignidade; eu a vejo como minha mola, meu escudo, minha fortaleza, meu eu. Minha sombra é aquilo em que me transformarei em um momento propicio. E quando me abro para vivenciar a realidade do que não é visto, incrivelmente tudo se torna mais claro. Quando criamos a empatia com esse segundo ser humano que existe em nós, começamos a entender o real motivo das dores e dificuldades humanas e sua panacéia se tornar tão próxima e tão fácil que é possível apalpá-la apenas estendendo a mão alguns centímetros a frente do corpo. E que prazer quando nos encontramos com esse ser escuro e sombrio e nos vemos nele, brutos, rústicos, ignorantes e prontos para recebermos as primeiras marteladas do ourives que irá lapidar essa pedra conforme sua vontade, a lhe conferir inumeráveis facetas, brilhantes e refletivas. Por isso me devolvo naturalmente e diariamente às sombras, me escondo à noite em suas garras, em seus braços encontro a paz que procuro e preciso, nos seus conselhos me encanto e alimento-me. Na sombra me protejo e me salvo. E de lá sai sempre um novo homem, um novo molde, uma nova fôrma e nova forma.
DEPOIS DA LAMA, A ÁGUA
E lavar-se nesse ribeirão é delicioso. Revigora, acalma. Mas esse ribeiro não é para todos; poucos são os que se dignificam a buscá-lo além do véu das realidades que não são. As gentes crêem que tudo o que vêem faz parte da realidade. Estão todos iludidos, alucinados. É da água que precisam, é afogar-se que esperam. É sereia, nereida, Ondina. É tudo isso e nada além ou mais.
A LUZ NEGRA
Chegará o momento em que não haverá outra luz senão a negra, que não lançará mais sombra com a qual se cresça e progrida; e então resistirão apenas os que se deram ao prazer de questionar, serem questionados, serem resilientes, resolutos, responsivos, bobos, bêbados e alcoólatras.
Como me doía ver meu amor alcunhado assim por outro alguém; ver que meus carinhos já não eram mais aceitos, aliás aceitos eram sim, mas não tinham o peso de outrora. Que veneno para os olhos vê-los juntos, unidos... não me incomodava a felicidade, apenas a união. Queria ou que todos fossem tão solitários como eu ou que fosse eu tão unido como os outros. E por que todos tinham seu alguém a mim se dava o prazer da una companhia? Para que se casavam e se davam em casamento, que no entanto não tinham certas primazias no relacionar-se.
Que vontade de repetir o passado. Que vontade da espiral de baixo.
Mas me elevei e quão grande é isso para um da gente. Passo a passo afasto-me dos seres humanos e me afeiçôo ao panteão dos que, de pensar, morreram. Este é momento de se experimentar em todos os sentimentos; já fui para o fundo desse mar. Agora é a hora de ir para mais longe pela superfície da água a olhar o céu noturno, contemplar as estrelas, olhar o céu, o sol, o dia, a tarde, a noite, a tempestade, até que veja a terra e possa aportar em algum ancoradouro.
Essa é a luz negra que ilumina minha sombra para que eu vendo-a, avance sobre ela a vença-a.
CONCRETUD.E.TERNA
Aprendi neste ultimo final de semana que o ser humano é um individuo depende de outros indivíduos que podem ser ou não de sua mesma espécie, mas que invariavelmente deverá compartilhar com ele o poder das vibrações; se as vibrações forem externadas em cadeias de carbono, melhor ainda.
Precisamos da intervenção de outros seres para que nos mantenhamos eternos. É a influência que o outro nos provoca que faz nossa vida ter sentido e ter lugar no espaço.
Embora alguns possam pensar que existe loucura no que digo, e não me importa tanto o que possam pensar, digo afirmativamente que existem duas vidas em nossas vidas as quais darei o nome de vida “Y” e vida “X”. Essas vidas estão acessíveis a todos os que as buscarem embora nem todos as alcancem.
A vida X é a que todos conhecemos naturalmente como vida terrena; é a existência. E podemos defini-la como sendo o momento no espaço-tempo compreendido entre o surgimento e desaparecimento de determinado individuo neste eixo X. Como a própria física quântica defende, hoje creio que somos seres tão eternos quanto à eternidade, contudo estamos numa realidade 2D ainda. Precisamos evoluir e sair dos caminhos de esquerda e direita, para frente e para trás. Precisamos começar a subir e descer em nossa existência e aproveitar o máximo que pudermos. E aproveitar o máximo é diferente de aproveitar ao máximo. O primeiro caso é para os “too much”, para um tipo de gente que vive na extremidade da vida, que superlativa sua existência e as eleva às potências incalculáveis. Para elas há o perigo do extermínio precoce já que uma das leis que rege a natureza é a lei do caos harmônico, porque até mesmo na harmonia habita uma pitada de caos, de choque real, que possibilita a convivência relativamente pacifica dos seres e quando surge alguém que interfere com mais força nessas forças, a vida se encarrega de quem as faz e se descarrega delas na eternidade. Eis a pacificidade que nos é obrigada.
No eixo “Y” da existência está tudo o que podemos considerar como sendo os insumos à vida. Lá estão escritos os princípios e fins de como utilizarmos a vida, afinal ela é um produto à nossa disposição e por isso levamos da vida a vida que levamos. E apenas isso e por tudo isso é que seremos lembrados pelo restante da eterna eternidade. AH, como seria bom se todos pudessem compreender a importância deste eixo mais que o da existência temporal. É nele que eu quero estar e estarei e sempre estive.
É por ele que aprendemos que somos a existência copiada do Deus não-criado, eternos em nós mesmos e finitos em nossas influências, por isso a vida se fez tão presente, não temporalmente, mas presenteada, exatamente por podermos influir em todos os outros indivíduos a nossa volta.
Descarte diz que pensarmos é a razão de existirmos, se, porém fizermos um experimento de colocar um homem em uma sala escura, sem luz, som, cheiro, textura, certamente este homem perecerá. Precisamos interagir e sermos influenciados pelo ambiente para que possamos viver. Quanto mais vivemos mais interagimos, quanto mais interagimos mais nos mantemos vivos, quanto mais isolados mais mortos. E precisamos sair do circulo vicioso da espiral na qual nos metemos todos os dias. É preciso nos elevar ao super-homem.
É necessário pensar para existir, é necessário influenciar para pensar, é necessário fraquejar para ganhar forças. É necessário beber da fonte eixo Y.
Então me pego pensando em como eu quero tanto e não posso quase nada, aliás, eu quero tanto e não me permito quase nada; poder eu tenho e posso. Quero o que quero, mas os quero na medida do que me caiba. E esse caber é um chato que não me deixa sossegar a alma e que fica constantemente me colocando no tribunal da minha mente a julgar tudo e todos, a comparar e analisar e quantificar e qualificar e descartar e reduzir. E não chego a fim algum. E me sinto frustrado com esse todo que agora é nada; é apenas vislumbre de algo que um dia poderia ser não fosse o fato da chatice da preponderância finda em si. Em Sí bemol sustenido.
E busco, e procuro, e preservo, e desperdiço, e arrisco, e me mato, e me morro, e vivo, e vivo, e vivo...
É preciso entender a existência do meu querer. Quero o que quero ou quero o que me parece? Quero o fato ou a foto? Quando estou querendo, estou no sentido do querer ou no sentido da querência? Quero o principio, o meio ou o fim? O que querer, o que buscar, o que procurar, o que precisar, o que intencionar, a quem se apegar...
A quem...
Aquém...