O CLAMOR DOS OSSOS
Chegará o dia em que minha voz não será mais ouvida e restará apenas às pedras dizerem do que fui e do que fiz.
E minha carne clamará por retornar à liberdade de ir-se para onde bem entender.
E clamarão meus pensamentos pelos objetivos traçados e os tão pouco realizados
E clamarão meus pés por andar novamente no mesmo caminho errado de outrora, não pelo prazer do erro, mas por saber-se necessitado de aprender o que mais uma vez não pôde aprender.
Clamará minha carne pelos prazeres seus.
Clamará minha carne por carnes alheias, por clamores alheios.
Clamará minha memória pelo esquecimento dos entes queridos
Clamará meu coração pelos amores perdidos
Clamará meu rancor pelas raivas contidas.
Clamarei por clamores maiores que os meus.
Virá o dia em que clamar será a única e derradeira ação que se terá recordação. Será a síntese do que sou ou fui, e que talvez tenha deixado de ser.
Clamarão, certamente e sem erro. Se serão atendidos, não sei. Se serão ouvidos, desconhecido por quem o serão. Clamarão, certamente clamarão.
No clamor descobrirão o que hoje descobri ao cruzar as pontes que me separavam de mim mesmo. Compreenderão que tudo coopera para bem de quem o valha. O sofrimento é o veículo condutor das maiores alegrias e felicidades. O segundo virá na mesma proporção do primeiro. Quanto maior o maremoto, maior o tsunami.
No clamor da salvação verão o que vejo hoje. Que as pessoas nascem sem saber que deverão sofrer não porque lhes seja fadado o sofrimento, mas para que compreendam a inteireza da palavra “paz”. Cada desabor, desafeto, desaforo é crucial para o ser humano que se cria diariamente em nós; e os símbolos com os quais vivemos perderão seus signos de modo a nos livrarmos dos arames que prendem e nos sangram a alma e os desejos.
Clamarão, lhes digo! Apure os ouvidos e estará claro o que se pede com pungente ardor. Apronte-se para encarar os que clamam, pois seremos todos, clamores.
E antes do amém final, vindo a nós um outro reino, da terra ou do céu, receberemos um bom troco a cada dia. E pagaremos, indulgentes, para que clamem por nós, outros que, clamados, se perdem em orações, epifanias e clausuras.
Clame! Te peço! Clame! E receberão teus ossos, tuas cinzas e dirão de ti: “Vives-te intensamente para, ao morrer, ser lembrado eternamente”. E mesmo que não haja quem levante a voz em teu nome, sua ausência clamará por sí mesma. Clame, antes que até se finde o tempo de receberes um ditongo, uma sílaba. Antes que sejas apenas um ponto final.