3.27.2008



PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS DORES

Conto-lhes uma certo causo que não é bem causo nem acaso. Está para Ocaso:

Certa vez um rei soube dos planos de seus inimigos para lhe tomar o trono. O tão rei era um verdadeiro canastrão. Um rei mais para regente que para soberano.

Sabendo das canalhices e armadilhas que os inimigos preparavam, o tal rei decidiu reunir tudo quanto pôde, em serviçais, bens e outros souveniers. Fretou uns bons aviões e partiu para uma terra distante, donde possuía alguns bons amigos que certamente lhe dariam guarida neste momento de aflição.

Chegando à casa de seus anfitriões o Rei, por ser rei, foi metralhando ordens à torta e à direita; "era uma vez um hóspede", pensou o anfitrião, prevendo as mazelas futuras decorrentes do espirituoso rei.

O Rei se lambuzou, deitou e rolou, e ralhou e xingou e grunhiu. Fez o diabo! Até que o anfitrião começava a sentir o peso de sua hospitalidade. Mandava recados "reais" ao rei usurpador questionando quanto ao regresso às terras reais, a reconquista do trono. E o tal rei, sabedor da desaventurança do por vir em terras alheias, decidiu voltar. Por fim voltou, não sem antes causar mais algumas contendas e armando um bom barraco feminino. Mas nessa volta nem todos os que com ele vieram, puderam voltar - uma questão de logística e puxa-saquismo. Os que ficaram, ainda tinham em sí, em seus espíritos a nobreza do serviço à vossa magestade; e sem vossa magestade como ficariam estes mucamos, mulambos, mundanos, morenos? Se uniram afim de manter viva a chama do brasão Real. Se portavam como se estivessem na corte, andavam como se fosse em palácios, brandiam como se estivessem defendendos suas idéias contra os pensamentos de algum "lord" estrangeiro. Enfim, eram reis sem coroas, servidores sem pátria e ainda assim ostentavam esse "quê" e ostracismamente retiravam de seu séquito os que não tivessem qualquer ligação com a Coroa, fossem pobre ou ricos. Loucura? Não... Rio de Janeiro.

E nos meus tempos de faculdade eu já dizia: "Olha gente, esse povo não é flor que se cheire. Eles vão acabar ferrando o mundo todo. Pois com eles é assim: nadou, andou, pulou, voou, rastejou; eles comem. Quem não sabe cozinhar e come cru, nunca apreciará os prazeres da mesa."
Pois está aí. Eu disse! Hoje eles são a maior potência emergente, concorrente, displicente do mundo. Um bando de gente que fede à beça. Que não usa garfo; que não se veste, se enrola. Parece que vivem num eterno luscofusco. Nunca ví nenhum deles de olhos realmente abertos. Poluem como mal-educados que são. Roubam empregos diretos de pessoas como você e eu e ainda nos fazem engolir seus produtos manufaturados cuja validade é de 2 meses - sem garantia. Uma Nação que produz cópias de tudo, como chegará à ser uma nação desenvolvida. Desenvolver ja é por si só antônimo de Copiar. Lá não tem liberdade de expressão: eu nem posso dizer que os odeio! Sarcozi que fez bonito, casou com modelo e disse a eles: "Jeux Olympiques. Je ne vais pas"

Mon Dieu, até quando ? Se Mao fosse Bom não teria vivido lá. Quase todas as nações do hemisfério norte tem em suas bandeiras a cor vermelha em sinal das conquistas que só alcançam em função da morte de centenas e milhares de pessoas em sua história. Já nós aqui da parte de Baixo, temos o Verde e o Amarelo em quase todas as bandeiras, porque temos saúde, natureza, alegria e calor. Já eles: todos gélidos no azul, mortíferos no vermelho, e ávidos pelo amarelo que vale ouro.

Apoio as forças do Dalai. E agora me vem o McCain dizer que o G-8 é do Brasil e tem-se que tirar a Rússia: Má Quem quer um presidente Muy amigo desses??? Se a cortina é de ferro e a guerra é fria, não consigo entender o aquecimento global; é por causa de quê?

3.22.2008


Resisto a admitir; resisto a escrever em primeira pessoa. Resisto mas não me nego.
Dia desses ou noite dessas passo na rua, andando em pensamento, e me encontro comigo, eu e meus pensamentos na convergência da solitude, da solicitude.

Dizem que os irmãos são pessoas presenteadas por Deus à nós. Pessoas que bem poderiam terem sido geradas no mesmo útero. Bem, saí por ai acompanhado de meus pensamentos, quero dizer no singular: Meu pensamento. Éramos, ele - o pensamento - e eu, sozinhos, ou juntos, andando sem rumo certo. Buscávamos algo que nem mesmo sabíamos o que era, e continuamos sem saber. É um quê de vazio no peito. É uma lacuna de vestibular que estudante nenhum consegue preencher. E não há professor que ensine. Andamos por horas a admirar pessoas, pessoas e seus amigos, tão pessoas quantos os primeiros. Se comprazem em dividir a vida que têm, uns com os outros. Todos pessoas, cabe aqui ressaltar. As pessoas têm amigos, a gente não. A gente é outra gente. A gente é um tipo de pessoa que não é bem pessoa. A gente é mais um, aliás, a gente é só um. Um só somado ao todo, mas sem ter conhecimento dessa separação social. A gente vive, mas não convive. A gente partilha, mas não participa. A gente contempla, mas não completa. A gente é outra coisa e ser coisa é ser diferente, é ser gente e não ser pessoa. É querer ter e se saber sofrer por, tendo, não compreender, ou compreendendo, não querer entender o que a gente, que não é como a gente, quer dizer.

Tem gente que é gente e tem gente que é pessoa. Gente da gente admira as bobeiras da vida, a charrete puxada por um cavalo idoso que é amigo da vaca, de quem o cavalo vem buscar leite duas vezes por semana. É manter a janela aberta sentindo o vento frio, não por gostar do frio, por querer sentir o vento e se permitir abraçá-lo também. É presenciar aquela briguinha boba porque alguém olhou para o lado no momento em que o outro lado também olhava. É admirar a bandeira da Praça da Bandeira em noite de chuva e ficar se perguntando que alegria a bandeira vê em chuva, que não se queda quieta no poste ao invés de tremular; talvez a bandeira sinta o frio da chuva a lhe correr pelas costuras.

Gente é aquela coisa que vê as pessoas juntas e senti uma inveja danada de também querer sentir a necessidade desenfreada do convívio em sociedade. Gente é coisa sozinha. Pessoa é manada. Gente come chocolate sozinha na páscoa, queima todos os retratos e lembranças na noite de São João para poder pular fogueira; gente ceia bife de soja no Natal para poder ter a companhia do pobre peru. Gente é foda, pessoa é casamento. Um é rápido, passa feito furacão, causa um alvoroço e de repente some deixando um rastro que nenhuma pessoa consegue entender. Pessoa não entende a gente. A gente queria uma mão amiga, um ombro amigo, um colo amigo, mas essas coisas são coisas de pessoas que não são gente como a gente. A gente, já disse, é outra coisa.

Pessoa é danada; pessoa quando encontra a gente quer logo tirar o atraso dos desabores da vida e a gente sabe disso. A gente se conforma com essa realidade, digo, com essa circunstância. Afinal a gente é calvinista, é pré-destinada conscientemente. Pessoa é lutherana, reformista, rebelde.

Ah, as pessoas! Como a gente gostaría de ser como as pessoas; como a gente gostaría de poder compartilhar de um convívio sincero e interdependente. Descermos juntos à praia, comentar da última pegada da semana, jogar conversa fora no Orange, aplaudir os malabaristas da vida que equilibram bolas e horas as bolas lhes caem na cabeça e a vida rola com as bolas ladeira a baixo. É nesse momento que a diferença se faz ou se desfaz. É quando as bolas caem que se sabe quem é gente e quem é pessoa. Tem pessoa que olha e ajuda, isso mostra que é gente, que é gente que entende a gente, mas há os que, caindo as bolas, gritam "oras" e só; ficam a olhar as rolantes bolas da vida. Assim são as pessoas. Cada um com seus problemas.

Falta gente na cidade. São mais de 6 milhões de pessoas vivendo por aqui, mas gente mesmo nem sei quantas têm. Mas um dia a gente aprende; aprende que a gente nasce sozinho, para viver sozinho no mundo, de espectador de pessoas que vendo gente como a gente, querem aproveitar como se a gente não soubesse a que veio para cá. A gente é esperto, a gente não é bobo não. A gente sabe onde anda o menino, o mocinho e o ladrão. A gente não é mole não. A gente é um mistério. Pessoa é ...lacuna. O que falta na gente é ser pessoa, ter um quê de pessoa que vive e mora na gente e deixar essa pessoa nascer já que a gente tá morrendo.

E a gente resiste. A gente Re-Existe. Só a gente resiste. Pessoa que é pessoa, desiste; desiste porque ser gente num mundo impessoal é duro, e eu já disse que a gente não é mole. Se é a gente não é mole e pessoa não resiste por ser dura a resistência, então o destino da gente está fadado. Tão traçado como nenhum calvino poderia pre-conceber, pre-ver, pre-destinar, pre-caver, pre-existir. Tem horas que a gente deixa de ser gente e vira lacuna, se transforma no silêncio do universo, numa eterna pergunta com cara de "quê?".

E quando eu for embora, pra casa em Pensamento, será que a gente vai se lembrar de mim? Certamente que sim. A gente vive junto. As pessoas eu não sei se se lembrarão. As pessoas se esquecem rápido das coisas. Quem sabe um dia alguém (alguém: é uma pessoa que parece a gente) passa pela Praça da Bandeira numa noite chuvosa e se pergunte também: será que as pessoas vêem como essa bandeira tremula mesmo no peso da umidade? Enquanto houver dúvida, enquanto houver alguém questionando, a gente tem esperança. Tem esperança desse alguém ser gente como a gente e fazer diferença na vida das pessoas.

3.02.2008

A CONTA

Após aquela noite fatídica, sentia-se um pouco melhor. Pensava até mesmo em voltar ao trabalho naquela mesma tarde. Sabia-se em falta com suas responsabilidades na empresa. Levantou-se então, se dirigiu ao banheiro, fitou-se um momento a conferir se estava tudo em ordem com sua cara; se olhos e boca estavam em seus lugares.

Bateu a porta, duas voltas na chave. Sentia que o sol lhe fervia a pele. Talvez fosse em função do febril da noite anterior. De qualquer forma, comido pelo sol ou não, estava resoluto quanto ao trabalhar. Deu sinal à parada do coletivo e assentou-se no primeiro banco que vira vazio. Mãos frias, rosto gélido embora fizesse frente aos cálidos raios solares. Pôs-se a pensar no universo e nessa viagem embarcou de forma completa; tão completa que sentiu-se desistindo da realidade terrena. Dos companheiros de viagem, a do coletivo, não sobrou um sem espanto ao ver o corpo mole lançado ao chão. Ouvia-se algo no ar como "bate outra vez com esperanças o meu coração, pois já vai terminando o verão enfim..." No bar em frente ao hospital para onde levaram o corpo em viagem, um dos que faziam batuque aos sábados tinha sob suas mãos o jornal do dia e na mesa descansava a cerveja e o conhaque, impassiveis todos, bebida, bamba e batuque, ao que acontecia do outro lado da rua. Dois brutamontes, uns verdadeiros armários, peguaram o corpo malemólico e o sequestraram a contragosto para uma das salas brancas, sem cores, apenas a cama de tubo e uma cadeira de plástico, tudo ornando em branco.

Uma enfermeira entrou no coletivo a questionar paradeiro, procedência e outras informações inutilmente solicitadas, afinal tudo era tão desconhecido como o era o corpo, seus motivos e processos.

No universo foi feita a perguntada fatídica.
- Disseram que participará do próximo carnaval, o barracão pode contar contigo?
- Não; Não participarei mais dos desfiles a não ser assistindo do camarote...

Os médicos correram para a sala da enfermaria. O carnaval havia acabado, o surdo emudeceu, o tamborim aquietou-se, a cuíca se ria, chorar nunca mais; se ouvia "A sorrir eu pretendo levar a vida..."

Os médicos corriam desesperados, apressados, nervosos. Essa foi a conta do carnaval daquele ano bom, daquela vida muito bem vivida e da morte poética aos vinte anos blues.

"A Vila tem um feitiço sem farofa, sem vela e sem vintém, que nos faz bem. Tendo nome de princesa, tranformou o samba num feitiço descente que prende a gente.
O sol da Vila é triste. Samba não assiste porque a gente implora: Sol, pelo amor de Deus, não vem agora que as morenas vão logo embora."