2.24.2008



RIHIENA E SEUS GUARDAS-CHUVA

UnHead Technological Body Biography

Adentrava aos poucos aquele ambiente que outrora fora meu reduto, porto-seguro. Estava diferente agora. Já não reconhecia mais as cores, as texturas, os odores. E não era apenas o ambiente que mudara,; as pessoas eram outras. Lembro-me de quando o exército dos Farroupilhas, maltrapilhos vestidos apenas de calças, se iam rebolativamente ao som de "Sem Mais Drama na Minha Vida", refrão tão repetido pelas Marias Cegas. Tinha para mim que aquilo era, em última análise, uma música, pois se assemelhava a clamores frenéticos de uma geração tão perdida, tão absorta, tão delirante no sentido do sofrer, sem entender que sofrer é primevo à evolução humana. Evolução sem Sofrimento é Enganação da Mente.

Alguns dos novos habitantes me encaravam como se eu não fosse bem-vindo naquilo que um dia fora meu parque-de-diversões. Quem pensam que são? Muito antes de estarem aqui eu já era "habituée". Outros, que não se escondiam nas sombras das marquises, que se expunham bailantes, galantes no intuito, românticos nas palavras, infantis nas ações... esses mesmos eram os que, como disse o que me acompanhava, eles eram os "Night Gospels" ou então astrônomos, porque se punham em observar o céu, o céu sem estrelas, um céu tão próximo de onde algumas estrelas piscavam em cores alucinantes, verde, vermelho, amarelho, lasers estelares, como a espera de algum Messias, ou qualquer outro Santo-Homem que lhes assuntasse aos céus. Eram como uma tribo indigena - vi isso acontecer no Alto Xingu. Todos se uniam numa dança frenética do extasê. Dança do Extâse, com Extâse e alguns presentes dos Santos Cosme e Damião: balas, doces e alguns chicletes sem tantos efeitos. Duas horas de coreografia ritualística batendo os pés do chão, rosto ao céu, olhar perdido no infinito negro. Falar? Quem? Ninguém falava, não havia possibilidade de qualquer comunicação consciente; estavam todos tomados por aqueles Ovnis que pairavam sob suas cabeças. Creio até mesmo que alguns tiveram a alma abduzida dado o fato de sem mais nem menos seus corpos despencarem no chão, as pernas não se aguentavam e se entregavam a Morpheu, um sonho estranho onde olhos piscavam sem controle, assim como todo o corpo piscava. Tudo pisca frente ao medo do desconhecido. Acho que alguém piscou para mim!

Nessa terra que vos falo não existe profissão, não existe razão. É puro animalismo. Usam seus corpos para satisfazerem seus deuses internos, seus deuses eternamente jovens, seus deuses que não envelhecem, que não adoecem, que não sabem o que é moral, tradição ou bons costumes. Deuses de conveniência. Deuses comprados em lojas de conveniência de algum Posto Ipiranga. Quisera eu ser como Dom Pedro e, às margens deste mesmo Ipiranga dar meu grito de liberdade, de independência dessa Metrópole escravocrata. Brinder minha auforria, gritar às Carlotas Joaquinas, às Teresas Cristinas, às Isabéis de Bourbon e Bragança: "Me tira desse corpo que não me pertence" Meu mundo é outro, meu corpo é outro, minha história é outra, meus deuses são outros.

Aqueles, os que só sabem olhar para o céu e se entregar ao ritmo de Ri-hienas e seus guardas-chuvas que não Offer-ecem nada a ninguém. Até Houston foi para o espaço. Se um dia você for a San Francisco, lembre-se das flores em seus cabelos e cumprimente as gentis pessoas que vivem por lá. Os seres brilhantes se manifestam em New York, London, Paris, Milan
Tokyo - sim, até mesmo no Japão - Asia, Malaysia, Las Vegas também...
Some blind people will ask you: How do you look?

Alerto apenas para o perigo "blinded"... Gente "blinded" não precisa ver luz, não querem... Lhes basta seus "Dark-Rooms".

Lá, como bem dizem cariocas, os parafraseio, "Beleza é fundamental".
PENSO, LOGO, D-EXISTO...

2.14.2008


ENSAIO DE UMA SEPARAÇÃO
Soneto da Separação Parte II


Todos se perguntam como se se apaixona, qual a origem do amor, do encantamento. Vou encenar respostas que poderão ser aceitas ou refutadas, confirmadas ou complementadas e para isso usarei experiência própria na intenção de não dizerem que não soube viver os fatos. Peço apenas que considere-os de forma crítica e analítica.

Suponhamos que você encontre um alguém, mas não qualquer alguém, digo um alguém vistoso, atraente fisicamente, de muito boa aparência. Quais suas primeiras intenções? Carne!
A primeira intenção é resposta do nosso instinto animal de preservação da espécie.
Logo que encontramos alguém, inconscientemente nos atentamos à largura dos quadris, tamanho do tórax, peitos, braços, pernas, nariz, pois tudo nos dá indícios de que nosso alvo será, ou não, um bom progenitor. Desta primeira análise que se faz em questão de milésimos de segundos passamos a uma segunda fase, tão inconsciente quanto a primeira. Nos atentamos para as demais características, não tão animais como outrora. Reparamos nos gostos pessoais quanto à estética: formato dos olhos, da boca, tamanho do nariz, sobrancelhas, cor e textura dos cabelos, altura e porte físico, jeito de olhar, andar, sentar, falar, palavras, gestos, frases. Tudo isso corrobora para uma boa noite de amor em algum quarto da cidade. Não adianta dizer que não é assim, pois é. Em principio resolvemos as questões no campo do puro e simples tesão. Ou vai me dizer que quando encontra uma pessoa com aquela boca, aquele jeitinho matuto, um bom rebolado, pensas em quê? Acaso pensa: "como seria bom sermos amigos" ? Discorde se puder.

E qual seria o próximo passo? O próximo passo é o amor. Amor, já diria Rita Lee e Arnaldo Jabor, é uma coisa e sexo é outra. O que vimos e escolhemos até aqui faz parte da procriação, mas amor não garante bebê. Amor é, por vezes casto.
Se as escolhas que te levaram para esse quarto de hotel forem acertadas; se todas as mensagens emitidas por seu subconsciente ou inconsciente estiverem corretas e forem correspondidas, se a tal noite foi um absoluto sucesso, outra necessidade se faz presente. É neste momento que o ser humano mostra por que é ser humano.
Olhamos a pessoa e disparamos um bombardeio de ansiedades, necessidades, fragilidades. Espelhamos, segunda a psicologia, em nosso parceiro, nossos pais. Seus gestos, seus gostos. Há quem esteja dizendo agora: "Oh não, eu não quero ninguém parecido com papai" ou então "Eu, querendo alguém igual a minha mãe? Nunca". Pois lhe digo que sim. Tomemos como exemplo Alexandre, o Grande; mesmo sendo imperador soberano de uma área que ia desde a Grécia, o Egito, Sul da Rússia, até áreas remotas próximas ao Himalaia e Índia, podendo ter qualquer esposa de linhagem nobre, desposou uma moça sem nenhum valor político, Roxana, que entretanto tinha uma personalidade forte e intrépida como a mãe de Alexandre; embora fossem diferentes criações, e aliás nunca tiveram oportunidade de se conhecerem, se irmanavam nas características pessoais; eram mulheres agressívas e possessívas. Tudo isso serve para desanuviar nossa visão e nos fazer refletir sobre essa pessoa em prisma com a qual nos vemos casados. Será ela parecida comigo ou com papai? Descubra você mesmo.

Continuando no campo das suposições: essa pessoa tem um coração imenso, um personalidade agradabilissima; o que mais lhe falta? Nada, não é? Pois falta.

Façamos uma lista das necessidades até aqui:


  • Instinto de Procriação: ele(a) parece ser bom progenitor(a)? sim
  • Gosto Pessoal: ele(a) é atraente para mim? está dentro do que considero beleza? sim
  • Proteção: parece com papai (meninas) ou mamãe (meninos)? sim

Agora começa a parte crítica e mais difícil de qualquer relacionamento. Será que ele(a) corresponde às minhas necessidades psicológicas?

Como assim? Eu não sou louca(o)!
Calma, leitor! Não digo que você esteja enlouquecendo. Digo que o ser humano só é ser humano por sua capacidade de pensar.
Tendo por base, Descartes - penso, logo, existo - o ser humano é resultado de suas escolhas, escolhas que começam na imaginação, no pensamento. O ser humano é, em função da possibilidade da mudança do ambiente a seu redor. É preciso, antes de qualquer mudança física, realizar tal cambio no campo mental, vislumbrando as formas de planejamento, execução e término da obra. Logo, nossas ações, todas elas, são concretizadas duas vezes, uma vez em nosso cérebro e outra vez quando da ação efetiva. É portanto, possível dizermos que não existe atitude desconhecida de modo que qualquer atitude nasce e morre na mente para então nascer e morrer no mundo. Se fosse um contrato, estas seriam as duas vias, ou seja, não haveria como alegar desconhecimento das cláusulas. Depois desse nó, o que quero dizer é: você tem anseios, desejos, aspirações. Esse parceiro(a) em questão "precisa" corresponder a esses desejos que, via de regra, são culturais, econômicos, sociais. Quer um exemplo prático? Pense então naquela pessoa, naqueles cabelos, naquele corpo, dono daquele emprego, com aqueles amigos... Pensou? É exatamente essa pessoa que você acaba de visualizar que é, para você, "a pessoa ideal". Ela é o ser humano dos seus sonhos. Espero que não se surpreenda ao saber que é exatamente essa pessoa que você procura nos outros. É sempre uma chama dela que você deseja sentir queimando dentro de todas as pessoas que tem conhecido e que já conheceu, pois essa pessoa ideal te completa socialmente, culturalmente, economicamente.
Isso é o amor!

Freud diz que nossas escolhas são feitas em função de necessidade sexual ou de reconhecimento. A pessoa que está contigo hoje, foi escolhida por tesão ou por te oferecer massagem ao ego?
É do desejo sexual aliado à necessidade de reconhecimento que nasce o amor. Amor sem sexo, é amizade, já disse o Jabor. Isso é uma verdade absoluta. O que diferencia seu melhor amigo e seu namorado é que com o segundo você transa. Ou seja, todo bom namorado é um bom amigo em potencial e todo bom amigo poderia ser, certamente, um bom namorado. Mas como essa relação é entre Ego e Sexo, se um não for tão bom quanto o outro, está configurado um cenário de conflito. O fim é certo! Pode você concordar ou não, aceitar ou não, assumir ou não. É fim e ponto.

Gente boa demais, personalidade agradabilissima, sexo fantástico, similarmente diferentes, porém não supri as necessidades sociais. A gente sofre, lógico. É coração, poxa! Mas é malhar em ferro frio, dar murro em ponta de faca... É fim!

Agora quer saber o que é felicidade? É sexo+amizade+auto-conhecimento. Somente quando nos conhecermos, somente quando soubermos o que queremos e somente quando, saberemos o que buscamos no outro. Você se sente numa busca constante e infinita? É devido a tudo isso que foi descrito. Você sabe que tipo de pessoa quer por perto? que tipo de corpo, cor de olho, de cabelo, de pele, peso, cheiro... lê Nietzsche? Ouve Jazz, Blues, Bossa? Fala sobre política externa? Entende de física quântica? Já andou sem rumo?

Tome agora mesmo um papel e uma caneta e descreva com exatidão a pessoa dos seus sonhos. Corpo, Personalidade, Posição Social, Cultural e Econômica.
Mãos à obra e seja feliz.

Penso, logo, D-Existo - ser inteligente cansa! (risos sarcásticos)

ps.: para conhecimento. Descrições das fodas:
Foda Mágica = Come e Some
Fast Fooda = Come em cinco minutos
Foda Virtual 1= Um cara com ejaculação precoce
Foda Virtual 2= Via servidor http://www
Foda Virtua = Foda com taxa de transferência em 2, 4 ou 8 Mega de velocidade
Fodástico = Foda Boa
Folhar (ll)= Foder em español

2.10.2008


CON-JULGADOS

Já não sei em que tempo verbal existe este sentimento mais que perfeito. Começo preterisado pelas ofensas, crendices, crises e credos de nossa futura vida a dois. Vida que, outrora, nos dispusemos a viver. Juntar escovas, panos, trapos, tratos, pratos, supapos e sapatos. Mas.

Esse Futuro imperfeito que somos nós poderia bem mudar de formas e parár, infinitivo, definitivo e nos fazer amar. Amar sem "ei", sem "ou", sem "ará", sem "arieis", apenas "ar". Amar sem parár, sem chorar, sem praguejar, sem pestanejar, sem esperar, hesitar, resmungar, discordar, polemizar.

Talvez pudesse intervir na gramática e arrancar os transitivos, os sujeitos que ocultamente minam o todo que um dia criamos.

Engraçado perceber hoje que o que buscava, em princípio, era a satisfação da carne animal e que ao final se tornou apenas afeto, desejo de proteção. E a sinceridade que me pede; que sinceridade louca é essa que tens que ao sabe da verdade se põe em estado de loucura. A mentira que ouves é a verdade que havería de acontecer.

Que sentimento louco este seu! Que loucura maior a minha, tentar te entender. Compreender que suas razões encontram razões em linhas sinuosas de uma estrada escura. Em minha carne sinta as forças se esvairem de modo que só posso satirizar que o teu amor me curaria não fosse o fato de tê-lo sorvido em excesso e ter-se tornado minha poção fatal, meu veneno. Loucura é amar e morrer de amor e assim estar por amar demais.

Nossas vidas são formadas pelas escolhas que fazemos. Cada uma dessas escolhas, bem ou mal-feitas, nos levará ao descanso eterno. Te escolhi e o descanso me vem. Repouso no consolo de saber amar. E se um dia despertar, tu de tua realidade segunda, não chores, apenas escreva: amaram-me , não por obrigação, mas pelo mais excelente amor, o amor escolhido.

O poeta só é grande se sofrer; alguns homens são grandes, por condição; nasceram para a grandeza, a outros porém, a grandeza lhes é imposta e nesta imposição reside a glória.

2.02.2008


O CÃO QUE ME POSSUI

(ao telefone)
Menina, nem te conto o que me aconteceu.

Por causa daquele filme que o Vinicius ficou falando e eu doida pra assistir. Afff! Foi cada coisa que eu vi. Era um nome doido o do filme, não lembro bem. Era alguma coisa “aberta”, sei lá; só sei que tudo no filme era aberto: primeiro a blusa, depois a saia, depois a calça, a porta do quarto, a boca dela, a boca dele, as pernas dela... Vixi, deu um calor que só!

Eu não sabia que esse filme era assim senão não tinha chamado a Tânia pra ver comigo. E você lembra da Tânia né! Aquela minha prima que mora no cu do interior onde o vento volta da curva que ele faz lá longe; é longe pra cacete, mas enfim, continuando... Ela tava aqui na casa da minha tia e fui lá, toda animada, chamar a menina pra assistir filme em casa. A coitada só fica enfurnada naquele quartinho, um cubículo quente, parece cu de pobre: quente, apertado e sujo.

E toca a gente pôr o filme pra rodar. Eu já tinha arrumado tudo: pipoca, refri, sanduíche, coxinha; tava tudo na sala só esperando a hora do abate. A Tânia, coitada, sem saber de nada, ficou me perguntando que filme que era, a sinopse, tal. Aí eu falei: “Ahh, é um cara que se apaixona por uma moça que depois morre quando eles estavam transando e ela é considerada suspeita e tal... é um filme legal, você vai gostar.” E a coitadinha acreditou em mim. Ok! Bora lá pro filme!

Começou... O moço era uma delicia. Moreno, alto, parecia o Danilão do mercado. Afff; me deu até saudade do dia que a gente fornicou no estoque. Alias, aprendi essa palavra esses dias vendo aquele programa da tarde – fornicar, tipo é a mesma coisa que dar pra alguém... Querida agora eu não dou mais, eu sedo à fornicação. Achei chique demais. Dá até vontade!

Voltando...

O filme passando o calor aumentando, porque, eita filmezinho quente viu! O cara, o morenão “a la Danilo”, catava a menina pelos braços na porta de uma loja, dizia umas palavras de amor, falava que ela não deveria nunca ter saído da vida dele. Ela fala que agora não podia mais nada, já tinha marido, filhos, cachorro e os carai a quatro. Aí o cara, tipo, puxa pra perto de um carro - que era dele, descobrimos depois - ele começa a falar umas sacanagens no ouvido dela, ela já deveria ter ficado toda acessa. E aí é que o bicho pega. O cara mete a mão dentro da blusa dela, arranca o sutiã numa puxada só. Rasga a blusa dela e já vai lambendo tudo que tem por ali. Ela faz que não quer, bem cara de virgem como dizia o Rodolfo. E ela lá, toda virgem, toda aberta!

Menina, nessa hora você tinha que ver a cara da Tânia. A bicha ficou cor-de-burro-quando-foge. Ela estava sentada, as pernas meio abertas mostrando o que não devia lá pro chão. Mão na coxa direita e a mão esquerda ensaiava um enforcamento; ela ia se esganar, a mão ficou grudada no pescoço dela e um olhão assim, esbugalhado, como se tivesse visto fantasma. Não sei se ela estava se sentindo a moça do filme ou o quê, mas, que cena aquela, digo a cena da Tânia.

Beleza!

E o filme correndo e a Tânia escorrendo no sofá. O cara do filme levou a tal moça pra casa, agarrou a moça no portão, virou de costas pra ele e começou a lamber tudo que era pescoço. Passava mão no peito. Ela com a mão nos bago do cara. Daí alguém chegou na casa do vizinho e deu o maior grito: Junãããããão!

Puta que pariu que susto. Imagina eu e a Tânia: a Tânia quase morta com aquela cara de olhão pra fora, eu tentando fazer de conta que nem ai, fazendo a linha Rosana – como uma deusa e um viado me grita desse jeito bem na hora que a coisa tava concentrada. Quase morri do coração.

Passou o susto e a gente continuou vendo o filme. Não deu cinco minutos a Tânia pediu pra parár o filme que ela precisava ir ao banheiro. Dei “pause”. Enquanto ela tava no banheiro eu aproveitei pra comer o resto da comida. Vou te contar, essa menina, depois que o filme embalou, a danada desembestou a comer as coisas, acho que mais pelo nervosismo da situação. E eu na Rosana – nenhum toque.

Vinte minutos e nada da Tânia. Pensei que tivesse dado um piriri brabo nela, afinal depois de misturar bolinho, pipoca, coxinha, refri e de dar o pulo que ela deu quando chamaram o Junão, só tinha que dar merda mesmo. E que merda demorada viu. “Isso vai feder até não querer mais” eu pensei.

- Tânia, ta entreguando despacho ai fia! O santo ainda não desceu!

E nada de resposta. Dali a um tempo a Tânia volta toda arrumadinha perguntando, com uma cara de alegre, se a gente já poderia voltar pro filme. Como eu já tava puta com a demora, doida pra fazer xixi, mas, com medo do cheiro que devia estar naquele banheiro, resolvi voltar pro filme. Seria mais interessante.

E corre o filme e a Tânia mudou de figura. Tava com a pele mais bonita, cabelo preso atrás, estilo rabo-de-cavalo. O filme ia correndo e o calor aumento. A Tânia desabotoou duas casas do colarinho deixando meio colo à mostra. Era o máximo que eu tinha visto dela desde o dia que ela chegou por aqui. Ela tinha aquele jeito pudico, toda madre Teresa. Essa menina é das periguete hein!

Tânia, o que aconteceu! / A moça disse que tava esperando por ele... / Não, besta, to falando de você. / Ué, comigo não aconteceu nada / Eu hein, parece que você ta diferente / Bobagem sua, to normal. Ela ficou me olhando de rabo de olho como se eu soubesse de algum segredo maldito que nunca deveria ter sido revelado; os olhos semi-abertos ou meio fechados, só espiando o que se passava a oeste no sofá. Depois de alguns minutos aquela situação estranha, o ar de interrogatório havia se dissipado frente aos envolvimentos do filme, mas deixa eu te contar a melhor parte.

Tava a gente lá, jogadas as duas no sofá, lenços na mão – o filme já tinha feito rir, chorar, assustar; perdemos toda a compostura – e eu não percebi que o Vitorioso estava nos fazendo companhia no filme.

(em um breve pensamento) “Vitorioso é um daqueles bichos que só de olhar pras fuças dele a gente sente a espinha gelar. Ele é bravo, não por braveza, maldade, rancor; digo bravo moralmente, até porque viver bicho de três patas e um rabo cotoco é vida de cão. Por essas e outras o beatificamos “Vitorioso”. Se fosse outro bicho, por causa de seu caráter e à parte seu feitio canino, tenho certeza que diriam ser um bicho espião. Podia ter penas, plumas, bico, pata com unhas grandes, grunhir, mugir, ruminar, por causa do carão que ele fazia, dava pra perceber que ali morava uma alma de cão”.

O Vitorioso veio se achegando devagar pedindo licença com os gestos já que não pode pedir com a boca. Cabeça baixa, olhando pra cima como se dissesse também quero participar. Consenti com a entrada do winner – momentos de carinho o chamava assim. A cena tava quente no filme e eu mais preocupada com o cão; bicho genioso demais pra ficar quieto sem mordiscar nada ou ninguém e como a perna da Tânia era o que mais estava à mão (sem trocadilhos) temia por ela, mas ela não se dava ao perigo que lhe sobrevinha, ficando com cara pasmada como se tivesse brasa na roupa. Apesar, que brasa eu bem sei que tinha por ali, só não sei especificar onde estava escondido o fogo.

Eu olhando para o cachorro, o cachorro olhando para mim, olhando para a perna da Tânia, eu olhando para a perna da Tânia e a Tânia olhando para a tv, não olhava para mim, nem para o cachorro. Eu já estava lendo o pensando do cão, já preparada para qualquer coisa de anormal que viesse atentar àquela paz concentrada no filme. Ele me olhava pedindo permissão, eu olhava em desaprovação. Ele me respondia o olhar dizendo que não adiantaria dizer não; não havia pedido permissão, seu olhar fora apenas de informação. Eu, retorquindo, olhava implorando para que não fizesse nada que pudesse me envergonhar. Ai ai ai, menino feio. Acho que ele sorriu.

Meio palmo de língua pra fora e... Vapu!... uma linguada das mais molhadas na perna da Tânia. Ela, impassível ao que acontecera, soltou um tênue e sutil suspiro, fechando os olhos como se algo lhe possuísse e exigisse meditação justamente naquele momento. Vitorioso fez jus ao nome. Olhou-me novamente. Ta vendo, não foi nada de mais, eu só queria sentir o gosto dessa perna branquinha, lisinha, com cheiro de castanha-do-pará. Eu, sem dizer palavra ou lançar olhar. Tudo bem então.

Vitorioso me inquiriu novamente. A Tânia parecia ter bicho-carpinteiro; contorcia-se toda no sofá com o desenrolar do filme. Por certo era o fogo. Era puro fogo. Passava mão vagarosamente pelo colo, pelas pernas como se qualquer inseto subisse em direção a qualquer lugar que não era habitat natural de bicho algum. Isso, nas mãos de malandro da vida, devia ser uma tristeza. Eita fogo!

Outro meio-palmo de língua oscilante. Não. Chega Vitorioso, assim não dá! Deixa a menina em paz! / Ah, eu quero só mais um pouquinho / Vitorioso, pára senão vou ter que te colocar pra fora / É que eu to vendo uma coisa boa daqui de baixo / Vitorioso! / O que foi! Só comentei / Comentou, é! Eu bem sei o que essa tua cabeça de cachorro ta pensando, ou acha que certos homens tomam tua raça como identificação a troco de quê! Cachorro é sempre cachorro, não importa classe, filo ou ordem / Ahhh, balela. Ela nem vai reparar. Viu como ela nem se mexeu da outra vez / Escuta aqui cachorro; agora chega. Se você chegar perto dela te boto no quintal / É na base da ameaça que a gente vai tratar agora!: Então aceito / Vitorioso, não me provoca / Grããããã / Ta rosnando pra mim é! / Grãããããã / Ah, cachorro eu te pego.

Jesus, valhe-me Deus, Nossa Senhora, Pé de pato, Eparrei, Vá de Retro! A Tânia deu um pulo de uns dois metros de altura. O sem-vergonha do Vitorioso deu uma puta lambida bem no meio das pernas da Tânia. Ela deixou as pernas abertas, expondo o... a... aquilo. O cachorro correndo de mim, eu correndo atrás dele, a Tânia mais largada no sofá que mala velha. Toda com cara de que viu um anjo. Eu gritando com o cachorro e ele, mais Vitorioso do que nunca, corria! Não sei como, mas cachorro perneta parece não sentir falta da pata quando sente o perigo se aproximar.

Desde aquele dia a Tânia e o Vitorioso começaram um amor interacial em olhares. Não to falando amor, amor, fato consumado não, viu! A Tânia não é tão louca assim e eu nojenta a ponto de deixar a coisa descambar para o imoral ou amoral. Mas acho que o cão vai pedir ela em casamento. Quando digo cão, não falo do diabo, embora a carapuça lhe servisse perfeitamente, afinal a Tânia, moça direita, enveredou por uns caminhos estranhos, parecia que lhe faltava algo que a empurrasse ladeira a baixo. Parecia ter sido possída.

O cão! Tânia! O Diabo... será...!