4.30.2012

Amar em Varsóvia


Varsóvia, 15 de Fevereiro.
Uma era pianista em um bar de hotel do centro, a outra bailarina do teatro Bolshoi. Moravam juntas havia pouco tempo contrariando a vontade da família de ambas. Eles achavam que era um falta de vergonha duas moças tão distintas, vindas de tradição e criadas com tanto esmero naquela escola suiça.
Fora lá que se haviam conhecido. Uma tocava para que a outra bailasse. Embora fosse bailarina clássica, tinha uma predileção especial por Martha Graham, talvez pelo símbolo de rebeldia desta. A outra, não; a outra era pianista dos clássicos do jazz e blues, embora sua verdadeira paixão fosse Mendelson, mas Med - como o chamava - não pagava seu aluguel. Aquele professor sempre lhe dissera que seu futuro seria brilhante se continuasse se dedicando com afinco aos estudos; ao menos quatros horas todos os dias.
Moravam em um prédio que tinha as marcas das grandes guerras e se fosse só por isso já seria extremamente bucólico. A calefação funcionava quando lhe dava vontade, obrigando maiores xícaras de chá, maiores doses de vodka, whisky e qualquer outra coisa que pudesse lhes esquentar o corpo de alguma forma. O colchão surrado que usavam como cama tinha cheiro de história; diziam que qualquer dia chegaria um emissário da Unesco para declarar a inviolabilidade daquele colchão que pudera ter sido usado por algum rei etrusco.
Amavam-se a mais que as linguas falassem do despudor de duas grandes estudiosas das artes clássicas. Mas não davam atenção alguma. Já se haviam acostumado a ouvir os gracejos desde muito pequenas, ainda na escola dos alpes. Eram alvos dos olhares estranhosos de seus educadores e pares de estudos. Eram a cópia perfeita, uma da outra. Por vezes lhes confundiam com irmãs. Eram esguias, cerca de um metro e setenta, pele de porcelana, olhos absolutamente azuis e cabelos quase brancos que reluziam o sol e as transformavam em verdadeiros anjos. Preferiam a história grega das harpías.
Uma era Vênus, outra, Afrodite. Embora fossem distintas na carne e na história, eram as mesmas pessoas em espírito e alma. Viveram suas histórias até que a própria história resolveu unir-se em um único enredo: as valquírias. E de fato pareciam duas partes de Vagner, cada uma tocada a um tempo, tendo se encontrado naquele final apoteótico, cheio de solfejos, pax de deux, gracejos, lampejos, primeira, segunda e terceira posição, claves de Sol e de Fá.
Certo dia tiveram uma discórdia como nunca houvera acontecido. Passaram mais de quinze dias sem se falarem direito. Os ensaios não rendiam e as noites eram longas. Colocaram a promissória da insônia em nome de cada qual; eram as responsáveis pelas voltas e voltas que os sonhos e o sono iam passar pelos outros guetos da cidade, percorrendo as chaminés, os quartos das crianças bulgaras, croatas, até chegar a Moscou.
O dono do hotel havia percebido a mudança nas apresentações daquela pianista. A coreógrafa a fazia ensaiar em dois períodos na tentativa de a fazer refinar.
Numa tarde sentou-se ao piano, velho, um armário sonóro; pegou uma peça de Chopin, e quem conhece Chopin sabe que suas composições passeiam da sublime alegria até a mais forte tristeza. À execuçaão dos primeiros acordes, o som tomou conta dos corredores do prédio. Saiu do quarto com o rosto inchado e lágrimas ainda escorrendo; descalça, pé em ponta. Se olharam com profundidade.
Ela bailava, ela tocava. Fora a peça mais bem executada de todos os tempos. Sentimento impresso entre os dedos e teclas e assoalho. Sua mão falava, seus corações entendiam e seu pé respondia. E assim ficaram numa conversa de artistas que se amam. Uma "d.r." artística que durou exatamente oito horas, até que começasse a nevar.
Trocaram o som do piano rústico pelo som dos beijos e do ranger das molas do velho colchão. Se trancaram e se amaram e nunca mais se ouviu um concerto igual em toda a história.

Nenhum comentário: