Varsóvia, 15 de Fevereiro.
Uma era pianista em um bar de hotel do centro, a outra bailarina do teatro
Bolshoi. Moravam juntas havia pouco tempo contrariando a vontade da família de
ambas. Eles achavam que era um falta de vergonha duas moças tão distintas,
vindas de tradição e criadas com tanto esmero naquela escola suiça.
Fora lá que se haviam conhecido. Uma tocava para que a outra bailasse.
Embora fosse bailarina clássica, tinha uma predileção especial por Martha
Graham, talvez pelo símbolo de rebeldia desta. A outra, não; a outra era
pianista dos clássicos do jazz e blues, embora sua verdadeira paixão fosse
Mendelson, mas Med - como o chamava - não pagava seu aluguel. Aquele professor
sempre lhe dissera que seu futuro seria brilhante se continuasse se dedicando
com afinco aos estudos; ao menos quatros horas todos os dias.
Moravam em um prédio que tinha as marcas das grandes guerras e se fosse só
por isso já seria extremamente bucólico. A calefação funcionava quando lhe dava
vontade, obrigando maiores xícaras de chá, maiores doses de vodka, whisky e
qualquer outra coisa que pudesse lhes esquentar o corpo de alguma forma. O
colchão surrado que usavam como cama tinha cheiro de história; diziam que
qualquer dia chegaria um emissário da Unesco para declarar a inviolabilidade
daquele colchão que pudera ter sido usado por algum rei etrusco.
Amavam-se a mais que as linguas falassem do despudor de duas grandes
estudiosas das artes clássicas. Mas não davam atenção alguma. Já se haviam
acostumado a ouvir os gracejos desde muito pequenas, ainda na escola dos alpes.
Eram alvos dos olhares estranhosos de seus educadores e pares de estudos. Eram
a cópia perfeita, uma da outra. Por vezes lhes confundiam com irmãs. Eram
esguias, cerca de um metro e setenta, pele de porcelana, olhos absolutamente
azuis e cabelos quase brancos que reluziam o sol e as transformavam em
verdadeiros anjos. Preferiam a história grega das harpías.
Uma era Vênus, outra, Afrodite. Embora fossem distintas na carne e na
história, eram as mesmas pessoas em espírito e alma. Viveram suas histórias até
que a própria história resolveu unir-se em um único enredo: as valquírias. E de
fato pareciam duas partes de Vagner, cada uma tocada a um tempo, tendo se
encontrado naquele final apoteótico, cheio de solfejos, pax de deux, gracejos,
lampejos, primeira, segunda e terceira posição, claves de Sol e de Fá.
Certo dia tiveram uma discórdia como nunca houvera acontecido. Passaram mais
de quinze dias sem se falarem direito. Os ensaios não rendiam e as noites eram
longas. Colocaram a promissória da insônia em nome de cada qual; eram as
responsáveis pelas voltas e voltas que os sonhos e o sono iam passar pelos
outros guetos da cidade, percorrendo as chaminés, os quartos das crianças
bulgaras, croatas, até chegar a Moscou.
O dono do hotel havia percebido a mudança nas apresentações daquela
pianista. A coreógrafa a fazia ensaiar em dois períodos na tentativa de a fazer
refinar.
Numa tarde sentou-se ao piano, velho, um armário sonóro; pegou uma peça de Chopin,
e quem conhece Chopin sabe que suas composições passeiam da sublime alegria até
a mais forte tristeza. À execuçaão dos primeiros acordes, o som tomou conta dos
corredores do prédio. Saiu do quarto com o rosto inchado e lágrimas ainda
escorrendo; descalça, pé em ponta. Se olharam com profundidade.
Ela bailava, ela tocava. Fora a peça mais bem executada de todos os tempos.
Sentimento impresso entre os dedos e teclas e assoalho. Sua mão falava, seus
corações entendiam e seu pé respondia. E assim ficaram numa conversa de
artistas que se amam. Uma "d.r." artística que durou exatamente oito
horas, até que começasse a nevar.
Trocaram o som do piano rústico pelo som dos beijos e do ranger das molas do
velho colchão. Se trancaram e se amaram e nunca mais se ouviu um concerto igual
em toda a história.

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