Ambos estavam ansiosos pela transcorrência da noite, pois havia algum tempo que conversavam e não se viam. Amizade de pessoas compromissadas tem dessas coisas; o tempo é artigo de luxo, raro, um tanto difícil de se compatibilizar. Enquanto um é da segunda, o outro é da quarta e assim a amizade vai indo e crescendo em rítmo yoge, aos poucos, lento, qualitativamente e sem pressa de querer ser a amizade mais incrível do mundo.
Um sms, uma ligação, um post, um recado, um scrap, e a relação entre eles se mantinha na exata medida da tecnologia. E eles não reclamavam de nada, afinal tinham um ao outro em devoção e puseram-se no 'Top of the Pop' em relação a qualquer outra pessoa com a qual pudessem ter maior afinidade.
Ligaram-se naquela noite e combinaram um encontro para discutir os rumos das vidas, alheios do desenrolar dos acontecimentos futuros. Falaram e falaram; conversaram muito. Marcaram na lanchonete a meio caminho de ambos. Negaram qualquer possibilidade de atraso ou desistência. Ver-se era preciso, urgente, premente. E de minuto em minuto auditoravam o caminho: "onde cê tá agora?" - "já saí de casa."
Caprichosos, escolheram a roupa que melhor lhes representassem. Puseram as gotas dos odores particulares. Asseio e elegância juvenil; pois sim, dois jovens amigos e quase cúmplices de um crime em andamento sobre o qual tinha suas parcelas de culpa e responsabilidade. Como diz a música, sabiam tudo a vosso respeito, ambos tinham os mesmos defeitos, eram suspeitos de um crime perfeito, não fosse o perfeito a ausência de suspeitos.
- Iae? Já chegou?
- Cheguei. Tô aqui onde combinamos.
- Peraí então; já to chegando.
- Cê vai demorar?
- Lógico que não! Me dá dois minutos que eu já tô aí.
- Cheguei. Tô aqui onde combinamos.
- Peraí então; já to chegando.
- Cê vai demorar?
- Lógico que não! Me dá dois minutos que eu já tô aí.
E foi um abraço de quem não se via havía anos, o que era uma verdade absoluta: a um, a ausência durou vinte e sete anos; a outro, vinte e cinco. Enfim viram-se, viraram-se e mataram as saudades eternas.
- Quer bala?
- Não agora. Valeu!
- Onde vamos?
- Quer subir? A gente senta e conversa né?
- Pode ser?
- Claro! Até melhor, né? Pelo menos te dou atenção sem tanta gente olhando.
- Cê tem certeza que não quer bala?
- Não agora. Valeu!
- Onde vamos?
- Quer subir? A gente senta e conversa né?
- Pode ser?
- Claro! Até melhor, né? Pelo menos te dou atenção sem tanta gente olhando.
- Cê tem certeza que não quer bala?
Riram-se de si mesmos, de um para o outro, da circunstância, da imprevisibilidade, do encontro, da saudade. Riram até do tempo que se acha o senhor de tudo e que naquele momento perdeu seu reinado para a eternidade que havia paralizado o transcorrer do mundo para que eles fossem imortalizados naquele instante que era pra sempre.
Olhavam-se; um desejo secreto e gostoso saltava dos olhos pelo mesmo canto donde um dia escorreram lágrimas. No lugar do choro havia então uma magia singular, um brilho radiante. Olhavam-se. Às vezes disfarçadamente, tentando esconder um desejo gostoso, maluco, safado, adolescente, hormonal. A quem queriam enganar assim, escondendo e negando essa vontade danada de boa? Era auto-suborno. Diziam "sim" apenas à amizade e "não" a todo o restante.
- Quer bala?
A situação ia ficando mais complicada de se administrar com o passar das horas.
- Cê quer?
- Quero! - rendeu-se.
- Quero! - rendeu-se.
Desenbrulhou o pequeno invólucro. Meteu o restante no bolso. Ia origamizando aquele papelzinho que dizia para curtir a vida, dar um 'like' em tudo o que fosse bom, compartilhar as alegrias. Já estava sem a roupa que lhe protegia da ação das formigas. Colocou a bala em sua boca, presa não sei se entre os dentes ou apenas segurada com os lábios. Projetou sua boca em oferecimento e disse "vem" sem pronunciar qualquer palavra. Aproximou, pegou a bala e encostou-se ao lábio.
- Cê quer bala?
- Mas acabei de te dar...
- Quer de volta?
- Mas acabei de te dar...
- Quer de volta?
Entendeu o recado e assentiu com a cabeça. E ficaram ali. Uma bala nunca durou tanto tempo. Aliás, esta já não era uma bala, era uma desculpa, um motivo, uma vontade capsular que passava de um para o outro de forma doce, suave e com chispas que faiscavam no ar combustível e inflamável.
O tempo desistiu de lutar. A eternidade venceu e entenderam que poderiam abolir a tal caramelo, como diriam os mais antigos. Eles queriam todo o doce como um pássaro que vem lamber o néctar das flores. E era isso que eram alí: pássaros e flores, tudo ao mesmo tempo, na alternância das bocas, da bala, do beijo.
- Ce quer bala?
- Pra sempre?
- Pode ser!
- Me dá da sua bala?
- Pra sempre?
- Pra sempre?
- Pode ser!
- Me dá da sua bala?
- Pra sempre?
Riram.
- Pra sempre!
Ah, a beleza da ignorância do tempo mestre. Não sabiam que a eternidade tem a duração de um segundo. E por isso repetiam a eternidade a todo instante e ficaram assim para sempre. Doce, mel, asas, vôos, pássaros, flores, balas e o tempo.

Um comentário:
meu sem comentários para isso tio, q linda essa historia. perfeito.
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