6.29.2011

O que lhes trago a seguir são fatos fatídicos que me aconteceram nem sempre da mesma forma que os narrarei. Algumas vezes farei a dor parecer menor do que foi; em outros momentos trarei a beleza que só eu vi no decorrer dos desdobramentos; haverão momentos de pura fantasia, pois é assim, fantasiando, que lido com a crueldade das coisas para tentar ao menos suavizar a pungência da dor que me assola. É uma ferida que não se cicatriza jamais. 

Há cerca de três anos tenho vivido uma certa realidade paralela em meus sentimentos. Já falei sobre isso num momento do passado, aqui mesmo neste quadro. Não posso retornar com peso e exatidão ao assunto já que seu alvo encontra-se sob os cuidados de alguém que demonstra um zelo ciumento em relação ao meu personagem. Personagem este que, sem qualquer esforço de sua parte, me arrebatou de tal maneira que me vejo como mosca sob a teia donde quanto mais me debato tanto mais me enrosco e me aprisiono. Se já tentei me livrar disso? certamente que sim, mas é um desses vícios safados, destes que a gente o prazer de não se libertar jamais, como um pecado bom de cometer, erro bom de transgredir. E se eu tentasse a liberdade? Me danaria por completo. Pois é; estou numa prisão consentida: ruim para quem se suborna e entra nela reclamando; pior ainda para os prestam resistência. O lugar tem la sua beleza se puder de fato encontrar a beleza da vida na simplicidade das coisas. 

Esta personagem me meteu em algum desses dois por dois sem janelas. Ainda estou aqui sendo alimentado vez ou outra para que talvez não me rebele. Certa feita deu-me o gosto da liberdade. Arrepiei-me, arrepiou-se, arrepiamos. Arrependo-me por não tê-lo metido - o personagem - comigo na cela e ter chamado outro carcereiro que nos desse préstimos. Mas minha vida é assim mesmo, exatamente assim. "Cheia de arrependimentos?", perguntarão. Não, evidente que não. Minha vida é assim, cheia de vontades não realizadas. Querer e poder, são realidades paralelas e distintas e muito próximas. Infligi-nos um abertão, um pisão no mindinho, uma topada de quina para que acordemos de vez em quando para a dura verdade da vida fora do quadrilátero. 

Fato é que estou cá, preso entre dois mundos. Mundos dos quais já fiz parte e tento saber por qual razão não submergi neles São duros comigo como o são com todos os outros, como foram e como serão. 

Fiz tantos planos, fundamentei tantos alicerces, planejei tantas coisas. Despendi energia, ação, e acabei construindo minha cripta. Errar? Por não poucas vezes; sou ser humano passível e possível de erro. E que graça teria se tudo já fosse perfeito? Pelo que deveria eu lutar? 

Ambos estão distantes, lá além do alcance de minhas vistas, mas sabem que seu lugar é ao meu lado. Eu os potencializo, os dinamizo, os tiro do prumo, da plano, e os ponho em contato com a volatilidade, a inconstância perfeita que dá harmonia a tudo o que há neste universo de Deus me livre. 

Estou lhes dando tempo para que descubram o quão imprescindível sou em suas vidas. Enquanto isso vou gotejando o meu amor e minha dor, misturados, sem sabor, a que sorvam e saboreiem o beber-me aos poucos. Quando se derem conta, terão mais de mim do que pensam e estarão viciados e precisarão voltar à fonte, aí então me verão vertente a seu bel prazer. 

Um me arranca de seu campo como erva daninha, como mato alto que lhe atrapalha ver o horizonte, entretanto sabe que um tosseiro é diferente de um campo vasto deste mato, e no segundo pode haver mais beleza que no primeiro e sua esperança é a de que essa beleza apareça. Mas há um capataz que teima e insiste em desprezar o valor do simples. Mas aqui há valor, não preço, portanto jamais poderá competir comigo ou contra mim. tenho a meu favor um poder que transcende seu entendimento. 

Outro é resiliente. Dá-se e não se entrega. Bicho danado. Este é meu mundo, maluco mundo doido de sandices e insanidades tão necessárias e precisas para. a manutenção dessa minha vida. 

Se me recuperarei? Se me livrarei? Se me tratarei? Quem sabe, um dia, talvez, quando decidir que este mundo já não é mais meu.

6.26.2011


Vou falar daquela noite. Uma noite que entrou para a minha história; para a nossa história. Comum como todas as outras noites, não fossem seus coadjuvantes: duas pessoas apaixonadas e enlouquecidas uma pela outra. 

Deu-se o início umas horas antes, talvez às 22 horas daquele sábado de março, creio eu - minha mente me prega peças. Entramos no carro e fomos em direção à estrada para viajarmos sem destino, e fomos tal qual norte fora todo o caminho. Íamos andando percorrendo as curvas e retas como a geografia nos ensinara. Olhavamos a paisagem noturna admirados do céu de brilhantes que se descortinava hora e outra sob nossas cabeças. Alí mesmo nos dávamos aos carinhos e carícias de dois jovens apaixonados que não vêem futuro sem a presença do outro. Era assim nossa vida, assim nossos planos. 

Beijavamo-nos tendo o ar frio da noite por sussurro e as estrelas por testemunhas. Piegas? Certamente! Mas que apaixonado não se ridiculariza quando se entrega ao vício ardíl? 

Nossas maos se encontravam e se amavam. Nossas palavras se calavam ante o muito falar dos olhos, e estes suavam pelo calor dos corpos em ebulição. Era uma paixão desenfreada em ladeira íngreme que não fazia questão alguma de parar. Era tudo paixão, era tudo vontade, era tudo volúpia, era o que era. 

Pedíamos o corpo e ganhávamos a alma. 

Ao chegar em algum destino não nos cerimoniamos e como animais arrancamos a pele que nos cobria e nos atacamos em unhas, garras e dentes. Urrávamos, grunhíamos, suspirávamos. Pedíamos trégua sem sucesso. Um queria a paz, outro a guerra e a luta não cessava jamais. Desferíamos golpes mútuos sem causar qualquer mal. Era como uma batalha de enxadristas. Éramos os reis, as torres, os cavaleiros e o tabuleiro era a cama. 

Sorríamos pelo prazer ou pela dor, pelo amargor ou pela doçura que escorria por nossos rostos. Enlouquecemos juntos, todos loucos entregues à mais alquímica paixão, mais devassa vontade, mais ardente desejo. Duvido ainda hoje se algum par se igualará a nós nessa peleja fatídica. 

Nos tornamos bestas feras que copulavam sem ressentimento, sem pavor, sem medo, sem restrições. Éramos únicos... 

Eram unhas, garras e gritos. Era o tremor das pernas e patas e o pulsar forte do coração. Era um corpo só. Era um sonho. E foi assim...

6.05.2011

Por quantas vezes nos pegamos em dias frios como esses de hoje pensando em como teria sido nossa história se tivéssemos tomado decisões diferentes, se tivéssemos mudado a história, se tivéssemos sido isso ou aquilo.

É em momentos em que o frio nos visita e nos sentimos sozinhos a procura de um colo, que começamos a pensar nas erros e acertos que cometemos. Nos julgamos, nos advogamos e nos culpamos de umas coisas, nos absolvemos de outras e no final não há conclusão da sentença.

Músicas, neste frio, me levam para lugares de verão, me levam para casas, apartamentos, montanhas, praias...

Perfumes me trazem camas, banhos, salas...

Tudo isso me faz ter contato com um universo denso e tenso que se esconde por entre as sinapses e ramificações desse submundo que me corroe.

E a gente quer um colo, um braço, um pescoço, um abraço, uma palavra, um engano, uma verdade, uma mentira gostosa, uma realidade falsa, um alguém além de nós mesmos, um bem maior do que os bens que se tem. Queremos um cheirinho de café, de chá, enquanto olhamos aquele céu azul gélido que sopra um vento que resfria a ponta do nariz enquanto ouvimos um "entra... está fazendo frio" e ao nos virarmos vemos aquela pessoa se contorcendo sob os cobertores de tons quentes fazendo cara de preguiça, abrindo um sorriso desconsertante e tão quente que nem a brisa fria que invade o lugar é capaz de ter mais força.

É nessa hora que tudo faz sentido, tudo é sentido, tudo sente de repente que tudo a tudo pertence e o tudo é muito pouco para descrever o que sentimos.

Esfregamos os olhos à procura daquele sorriso, daquela manhã, daquele sol brilhante, daquele "bom dia".

Saímos por aí numa viagem maluca. Fechamos a casa e nos colocamos na estrada atrás de nossas respostas. O chão é nosso caminho, o vento nosso companheiro e o mundo nosso destino e assim vamos e andamos e cruzamos morros, curvas, planícies, planaltos, platôs e vamos e andamos e nos perdemos de todo aquele tudo.

Deixamos em casa um bilhete onde está escrito "Não me espere. Não volto logo." E assim vamos e vamos e continuamos indo e fomos... Até encontrarmos uma criança à beira da estrada. Se não sabe quem é esta criança, dê-lhe um nome e fazei-a feliz em toda sua potência e faça dela sua razão e motivo de viver.