O que lhes trago a seguir são fatos fatídicos que me aconteceram nem sempre da mesma forma que os narrarei. Algumas vezes farei a dor parecer menor do que foi; em outros momentos trarei a beleza que só eu vi no decorrer dos desdobramentos; haverão momentos de pura fantasia, pois é assim, fantasiando, que lido com a crueldade das coisas para tentar ao menos suavizar a pungência da dor que me assola. É uma ferida que não se cicatriza jamais.
Há cerca de três anos tenho vivido uma certa realidade paralela em meus sentimentos. Já falei sobre isso num momento do passado, aqui mesmo neste quadro. Não posso retornar com peso e exatidão ao assunto já que seu alvo encontra-se sob os cuidados de alguém que demonstra um zelo ciumento em relação ao meu personagem. Personagem este que, sem qualquer esforço de sua parte, me arrebatou de tal maneira que me vejo como mosca sob a teia donde quanto mais me debato tanto mais me enrosco e me aprisiono. Se já tentei me livrar disso? certamente que sim, mas é um desses vícios safados, destes que a gente o prazer de não se libertar jamais, como um pecado bom de cometer, erro bom de transgredir. E se eu tentasse a liberdade? Me danaria por completo. Pois é; estou numa prisão consentida: ruim para quem se suborna e entra nela reclamando; pior ainda para os prestam resistência. O lugar tem la sua beleza se puder de fato encontrar a beleza da vida na simplicidade das coisas.
Esta personagem me meteu em algum desses dois por dois sem janelas. Ainda estou aqui sendo alimentado vez ou outra para que talvez não me rebele. Certa feita deu-me o gosto da liberdade. Arrepiei-me, arrepiou-se, arrepiamos. Arrependo-me por não tê-lo metido - o personagem - comigo na cela e ter chamado outro carcereiro que nos desse préstimos. Mas minha vida é assim mesmo, exatamente assim. "Cheia de arrependimentos?", perguntarão. Não, evidente que não. Minha vida é assim, cheia de vontades não realizadas. Querer e poder, são realidades paralelas e distintas e muito próximas. Infligi-nos um abertão, um pisão no mindinho, uma topada de quina para que acordemos de vez em quando para a dura verdade da vida fora do quadrilátero.
Fato é que estou cá, preso entre dois mundos. Mundos dos quais já fiz parte e tento saber por qual razão não submergi neles São duros comigo como o são com todos os outros, como foram e como serão.
Fiz tantos planos, fundamentei tantos alicerces, planejei tantas coisas. Despendi energia, ação, e acabei construindo minha cripta. Errar? Por não poucas vezes; sou ser humano passível e possível de erro. E que graça teria se tudo já fosse perfeito? Pelo que deveria eu lutar?
Ambos estão distantes, lá além do alcance de minhas vistas, mas sabem que seu lugar é ao meu lado. Eu os potencializo, os dinamizo, os tiro do prumo, da plano, e os ponho em contato com a volatilidade, a inconstância perfeita que dá harmonia a tudo o que há neste universo de Deus me livre.
Estou lhes dando tempo para que descubram o quão imprescindível sou em suas vidas. Enquanto isso vou gotejando o meu amor e minha dor, misturados, sem sabor, a que sorvam e saboreiem o beber-me aos poucos. Quando se derem conta, terão mais de mim do que pensam e estarão viciados e precisarão voltar à fonte, aí então me verão vertente a seu bel prazer.
Um me arranca de seu campo como erva daninha, como mato alto que lhe atrapalha ver o horizonte, entretanto sabe que um tosseiro é diferente de um campo vasto deste mato, e no segundo pode haver mais beleza que no primeiro e sua esperança é a de que essa beleza apareça. Mas há um capataz que teima e insiste em desprezar o valor do simples. Mas aqui há valor, não preço, portanto jamais poderá competir comigo ou contra mim. tenho a meu favor um poder que transcende seu entendimento.
Outro é resiliente. Dá-se e não se entrega. Bicho danado. Este é meu mundo, maluco mundo doido de sandices e insanidades tão necessárias e precisas para. a manutenção dessa minha vida.
Se me recuperarei? Se me livrarei? Se me tratarei? Quem sabe, um dia, talvez, quando decidir que este mundo já não é mais meu.
