Deitei, durmi...
Aos poucos meu espírito foi saindo do corpo e voando em direção de uma outra realidade, uma realidade que havia se iniciado há mais de dois anos numa outra noite semelhante a essa, porém com outros ares e aromas.
Sabe quando você tem um sonho que de tão bom não quer que ele se perca ou se acabe? Foi algo um pouco mais forte que isso. Já que os sonhos são produtos da realidade noturna que só lá vivem e não passam daquela para esta realidade. E lá tudo é possível, tudo é lícito. Para os que sabem dominar a arte e o prazer de sonhar, sabe-se que usamos tudo o que temos para conseguir nossos objetivos dentro deste mundo paralelo, sem depreciação, demérito. Lá não há moralidade, fidelidade, ética. Lá tudo é da lei.
Mas aqui... ah, aqui a letra é diferente, a canção é outra. Dançamos não o que queremos, mas o que podemos dançar. Os ritmos não são ditados por nossos desejos, mas por nossas potencialidades e possibilidades.
Eu dancei o que estava tocando. Era uma música lenta que enlouquecia, me tirava do estado normal de consciência. Me fazia pensar nas infindas possibilidades de tudo aquilo que eu nem teria ainda, e nem sei se um dia terei.
Eu sonhei e não fiz questão de acordar; fiz planos para tudo aquilo que logo terminaria; tornei o tão breve em algo eterno. E vivi como se não houvesse amanhã.
O telefone tocou avisando da realidade do sonho, da concretização do desejo, da personificação da vontade, da impossibilidade possível, outrora longínqua, agora tangível, paupável.
Sentei-me esperando sua chegada enquanto me lançava no mundo das letras. Onde estava?
Posto à frente, em pé. Tremi, assustei. O sonho atravessou os mundos, as serras, as curvas e parou à minha destra olhando-me firmemente.
Foi o melhor dia dos últimos dois anos, foi a realização de um dos maiores desejos.
Diz-se que os sonhos são as melhores realidades irreais. São doces, calmos, espirituosos, prazerosos mas, esse não era isso. Não tinha essa descrição. Era muito mais, estava além. Não há palavra que lhe faça frente.
Estou aguardando o segundo dia para fazer outra vez, essa palavra Sonho, tornar-se realidade e viver aqui na Terra toda sua potencialidade que se encerra nesse corpo, nesse desejo, nesse arrepio da pele, nesse cheiro doce, nessa mordida, nesse suor, nesse calor, nesse bronzeado.


