12.21.2010


Deitei, durmi...
Aos poucos meu espírito foi saindo do corpo e voando em direção de uma outra realidade, uma realidade que havia se iniciado há mais de dois anos numa outra noite semelhante a essa, porém com outros ares e aromas.

Sabe quando você tem um sonho que de tão bom não quer que ele se perca ou se acabe? Foi algo um pouco mais forte que isso. Já que os sonhos são produtos da realidade noturna que só lá vivem e não passam daquela para esta realidade. E lá tudo é possível, tudo é lícito. Para os que sabem dominar a arte e o prazer de sonhar, sabe-se que usamos tudo o que temos para conseguir nossos objetivos dentro deste mundo paralelo, sem depreciação, demérito. Lá não há moralidade, fidelidade, ética. Lá tudo é da lei.

Mas aqui... ah, aqui a letra é diferente, a canção é outra. Dançamos não o que queremos, mas o que podemos dançar. Os ritmos não são ditados por nossos desejos, mas por nossas potencialidades e possibilidades.

Eu dancei o que estava tocando. Era uma música lenta que enlouquecia, me tirava do estado normal de consciência. Me fazia pensar nas infindas possibilidades de tudo aquilo que eu nem teria ainda, e nem sei se um dia terei.

Eu sonhei e não fiz questão de acordar; fiz planos para tudo aquilo que logo terminaria; tornei o tão breve em algo eterno. E vivi como se não houvesse amanhã.

O telefone tocou avisando da realidade do sonho, da concretização do desejo, da personificação da vontade, da impossibilidade possível, outrora longínqua, agora tangível, paupável.

Sentei-me esperando sua chegada enquanto me lançava no mundo das letras. Onde estava?
Posto à frente, em pé. Tremi, assustei. O sonho atravessou os mundos, as serras, as curvas e parou à minha destra olhando-me firmemente.

Foi o melhor dia dos últimos dois anos, foi a realização de um dos maiores desejos.
Diz-se que os sonhos são as melhores realidades irreais. São doces, calmos, espirituosos, prazerosos mas, esse não era isso. Não tinha essa descrição. Era muito mais, estava além. Não há palavra que lhe faça frente.

Estou aguardando o segundo dia para fazer outra vez, essa palavra Sonho, tornar-se realidade e viver aqui na Terra toda sua potencialidade que se encerra nesse corpo, nesse desejo, nesse arrepio da pele, nesse cheiro doce, nessa mordida, nesse suor, nesse calor, nesse bronzeado.

12.05.2010


GUERRA AO TERROR - TROPA 3

Sob o título "Terror no Rio 2010", chegou as bancas do comercio alternativo um DVD que mostra uma colagem de cenas capturadas em diversas emissoras de televisão sobre a incursão das forças de segurança pública nas comunidades carentes do Rio de Janeiro na última semana de novembro de 2010. 

O povo fluminense é conhecido desde o império por seu gosto em alardear a desgraça cotidiana, transformando tudo em piada para que o viver pesaroso se torne mais brando, tendo por isso conquistado a fama da malandragem, ou seja, aquele que busca vantagem mesmo sob circunstâncias adversas. 

Porém esse gosto particular pela anedota positivista no ambiente malogrado tem se tornado ridículo e fora de propósito. Eu me questiono o motivo da venda de imagens da desgraça de um povo a ser vendida a este mesmo povo; é como se os afegãos, paquistaneses, iraquianos, tivessem filmado os ataques contra seus países e agora estivessem à rua aos gritos de "extra, extra... você que sobreviveu, veja como seu pai morreu! 1 por 5 e 3 por 10. 

Sinceramente ridículo, mesquinho... me faltam palavras para adjetivar tal desatino. 

E juro não saber de que cabeça tacanha partiu a idéia de se por em casa em meio a salvas de tiros e apertar o REC para gravar tudo e depois vender. O terror é comercial, a desgraça se vende nas bancas, a morte é gravada em discos e cedido a outros que não satisfeitos de terem ouvido, vivido e sobrevivido a incursão policial e à fuga criminal, querem ver e rever as cenas que deveriam chocar e envergonhar e contudo lhes causa admiração. 

De fato me espanto por saber que uns cariocas crêem que seus pares tenham gosto pelo ódio, pela desgraça alheia. Mas sei que isso não é de hoje. Vem de tempos. Basta vermos um acidente qualquer na rua e logo paramos para urubusar o acontecido. Temos sede de sangue e carne humana. Nossos ídolos são comandantes de jornais sangrentos. 

Povo nojento. Não é deste Brasil que faço parte. 

Meu povo é altivo, honrado, glorioso, altruista, positivista, amante da vida. 

Do Rio, eu quero a visão do mar, dos bares da orla, das meninas, dos garotos, dos vicios do sol. Para quê a visão de um morro de carne e sangue e miséria? Não estou dizendo para virarmos as costas para o povo que lá vive, digo sim que devemos ver as belezas, o samba que desce do morro, a mulata que de lá vem faceira, o pivete que largou tudo para empinar pipa, rodar peão, brincar de roda, soltar as armas e dar as mãos. 

Rio de Sol, não de sangue! Rio de Vida, não de morte! Rio de samba, não de tiros! 

Enquanto no além fronteiras vendemos o Cristo de braços abertos, vendemos por aqui um inferno fechado, um tempo cerrado e uma cara amarrada. 

Rio... não da desgraça, Rio de Janeiro que é quando tudo começa e a paz retorna juntamente com a esperança de um ano melhor.
AQUELA CARIOCA
Me chamou de moleque, de menino, de tudo e mais um pouco. Eu achando que era um malandro bobo. Bobo por ficar de plantão querendo ver sua passagem, seu desfile, seu abre-alas. 

Veio no meio da noite, entre luzes e explosões, me arrastou e tirou do mundo, catou de jeito, prendeu no canto e pronto: matou! Me surrou, me bateu, arrancou a roupa, me pôs pelado no meio da rua. 

Orixá de beleza e feitiço. Rogou praga, fez mandinga, botou meu nome no mel com fita vermelha e rosas. Fez efeito o feitiço feito. 

Estou preso, amarrado ao lembrar do passado, do gosto da boca, da textura da língua, do cheiro da pele, do calor daquele corpo. 

É um quadro caro demais. Precisa de um aparato de segurança imenso, por isso me contentei em apenas olhar e ver-te passar, deixar esse rastro de vontade em mim. 

Se te encontro na noite, na solidão das ruas, te tomo de assalto, te roubo, te rapto, te sequestro, te devolvo a algema que tenho em mim. Vai agora! Se solta criança... 

Se liga... tua estrada é reta? Sou essa sua curva. Teu mar é grande? Minha sede é maior. Quero te beber, te sorver, me afogar. Sabe aquele medo? Fugiu, saiu, correu. Medo mesmo é de ficar no mesmo lugar pra sempre e sabe que a vida é uma viagem longa e dela vamos sair sem chegar a algum destino. Vamos comigo por um trecho ou venha o caminho todo. Escolha! 

Mas é maldade demais isso que fez comigo. Passa e nem me olha, solta o corpo, balança e me faz arrebentar nas pedras como onda. E você me vem assim, do mar, com cheiro de praia, marca de sol, areia no corpo, pele dourada. Que pecado, que tentação, que vontade. 

Eu vou todo inteiro mesmo que me dê apenas a sua metade e mesmo não estando contigo o que é a saudade a não ser uma sombra viva de um passado que se recusa a morrer. Não há como te esquecer. Tua lembrança continua viva, teu frescor continua aqui. 

E sabe que mesmo estando com outro alguém o qual escolhi para comigo percorrer essa estrada, não me esquecerei de quando paramos e pensamos, mesmo que um breve instante, em como seria ser assim, eternamente jovens.