4.11.2010

Co-Vardia!

Cansei doutor! Chega! Pra mim não dá mais! Peço bandeira branca.
O senhor me tinha dito que persistisse, que agüentasse, que levasse a situação com bom ânimo e altivez, mas não consigo mais. Eu paro por aqui. Já não tenho mais forças pra continuar e na verdade nem sei se realmente eu quero continuar.
Essa tal luta sobre a qual passamos várias semanas conversando simplesmente me vez ver que eu estava ou estaria lutando por uma causa perdida, por algo que, sei lá... imaginei que tivesse um valor maior que o que foi-se apresentando a mim no decorrer destes dias.
Não adianta me olhar desta forma; já tomei minha vacina contra essa tua intenção invocabular.  Já aprendi. Não serei mais combativo, doutor. Serei de agora em diante a Resistência. Irei às armas não para conquistar ou proclamar, ou dar independência e direitos. Vou às armas para deixar do jeito que está, para manter o Status Quo.
Não! Não adianta o senhor vir com essa história que estou com medo de mudar porque o medo aqui é outro e não é meu, doutor. O senhor é que está com medo.
Ah, sim. É isso sim, doutor. O senhor tem medo de perder sua batalha em me curar. Pois saiba que não preciso de cura e mesmo que precisasse, de agora em diante eu me declaro incurável. Chega dessa palhaçada que querer algo melhor, de tentar ser melhor, de viver em busca do melhor. Isso é utópico! A realidade está ai para lhe desmentir. É simples, crua, nua, dolorosa, sangrenta, e não é nada feliz e nem se parece com o mínimo daquilo que o senhor descreve.
E sabe do que mais? O senhor deveria estar sentando onde eu estou. Pois acho que o senhor é mais passível de terapia do que eu.
Sabe esse seu desejo incontrolável e incurável de elevar as pessoas? FODA-SE! Mete essa vontade ... já sabe né?
...
Desculpa!
Me exaltei! É que estou realmente nervoso. Porque todas as pessoas pelas quais eu me apaixono só me fodem? E não é do melhor jeito que estou imaginando, doutor! Me fodem mesmo sabe? De verde e amarelo. Entram na minha vida, ou sei lá, invadem, arrombam a porta, pulam a janela e pilham tudo. Botam fogo no que sobrou e levam minhas crianças e minhas mulheres como prisioneiras. E fico eu aqui, vendo esse monte de nada, quebrado e esparramado pelo chão sem saber por onde começar a colar os cacos.
Os remédios? Eu parei!
Oras, parei porque eles estavam me levando para um mundo fora do meu. Eles me fazem sentir feliz...
Eu sei que esse era o objetivo, mas eu não quero uma felicidade em cápsulas miligramadas. Eu quero a felicidade boba, besta, idiota, solitária, companheira. Aquela felicidade de andar sozinho, lembrar de uma piada e rir vertiginosamente. A felicidade de um sorvete de creme pingando e a gente tentando terminar com o sorvete antes que ele se auto-destrua.
Pois é, doutor. Eu estou me declarando paciente em alta! Não... Por favor, não se levante. Esse é meu momento de me levantar e dizer que já basta de deixar minha vida em suas mãos doutor. Essa espada que trago comigo em minha alcova, ela será minha irmã e companheira e dela não me separarei jamais. Ela irá comigo ao sepulcro e de lá volveremos ao décimo quinto dia útil para recebermos a paga por nossos préstimos.
Eu disse que não era preciso que o senhor se levantasse. Em que parte desta frase sua mente se perdeu, doutor? Por favor, sente-se, eu insisto.
Só me resta agora lhe agradecer por usurpar parte de minhas riquezas e me fazer rodas em círculos. Saiba que quando um médico prossegue em um funeral, é a causa seguindo o efeito. Pois dê-me então sua mão. Ora, dê-me a mão, doutor.
Ponha aqui junto ao meu coração e fica aí até que sinta os batimentos diminuírem. Está percebendo? Creio que agora não terei mais condições de falar enquanto os batimentos estão diminuindo. Logo ele irá cessar e cessarei com ele e o senhor cessará junto, está compreendendo?
Não posso voltar atrás para dar-me um novo início, mas voltarei um pouco para escrever um outro fim.
Covardia?
Não!
Escolha!
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