De onde moro vejo diariamente aqueles modelos grandes e sempre lotados de pessoas que vão e vem de lugares distantes e alguns mais perto e fico sonhando, pensando na beleza de poder ver tudo de cima, de estar tão longe desse chão duro e poeirento e poder tocar o céu, o doce algodão de nuvens informes e disformes que se reformar na imaginação dessa cabeça maluca. A paz que sinto ao ver um desses morcegos prateados é tamanha! Sem medidas! É como se os meus olhos pudessem abraçar e serem abraçados na envergadura de suas asas. E vejo a ponte imaginária que nos liga a qualquer lugar que se quiser. Nos liga deste nosso nada com aquele lugar nenhum onde tudo é perfeito, onde a humanidade é perfeita e evoluída.É tão bom vê-los passar, vê-los voar, levando consigo meus sonhos, meus pensamentos, minhas realizações, minhas construções e quando voltam lançam aqui em casa um pára-quedas preso a uma caixa de madeira cujo conteúdo é o insumo para meus novos devaneios, minhas aspirações e tantos outros desejos.
DO Receio
Quando a gente estava em solo ainda, eu fiquei um pouco receoso do que seria de mim, do que passaria comigo em suas entranhas. Será que me acostumaria aos remelexos e sacolejos? O medo realmente me vinha beijar, mas o recusei qual noiva recusa a corte de um cavalheiro que não seja o seu tão bem amado e prometido.Dane-se se vai tremer, urrar, vibrar ou qualquer coisa. Cão que ladra não morde!
DO Anseio
A gente parado na fila a espera da nossa vez. Deixei que tudo seguisse seu rumo natural. Não havia planeja absolutamente nada até mesmo porque não havia planos, não havia conhecimento, qualquer coisa que sucedesse seria novidade. Acostumei-me à imprevisibilidade dos fatos. Era tão bom ser pego de surpresa pela vida e receber aquilo tudo que me fosse de merecimento.Não me preocupava muito com o destino a seguir, mas sim com como eu encararia o que estivesse por vir. Como seriam as benesses? Eu sabia, tinha certeza judicial de que me viriam coisas boas e muito agradáveis; era nestas ondas que eu estava vibrando há dias. Não teria como ser diferente meu destino.
DA Surpresa
Todo o novo se descortinou, se mostrou, se abriu, se prostituiu me chamando, me lançando olhares, gracejos. Fiz graça de quem se encabula com o galanteio. Não demorou muito para me lançar nos teus braços, nos teus seios, no teu colo, na tua cara. Eu disse: “vem, que sou todo teu”. Você me recebeu, me engoliu, me lambeu, me seduziu até que estivesse em suas mãos e a seus pés. E qualquer dor que doesse em você me sairia pela culatra do prazer. Beberia do teu vinho, amargo que fosse, vinagre que se fizesse. Água pura, vida madura, fruta no pé. Eu estava todo pronto para você e para tudo o que, e seja o que for, que viesse me entregar. Eu estava pronto para te receber.E me mandou andar, me ordenou desde o primeiro momento que saísse do meu lugar e fosse ao teu encontro; obedeci, afinal você estava em casa e eu era a tua visita. Não seria agradável de minha parte te fazer sair do teu conforto, aliás hoje penso que foi aí que começou nosso erro.
DO Encontro
Quantos beijos, quantos abraços, quantos amores, quantos gemidos, quantos suores, quanta volúpia, quanto desejo, quanta sede, quanto sol, quanto brilho, quanto tudo. Foi demais, foi grande demais, foi do tamanho das distancias.E como foi tão igual te encontrar, como foi maluco, como foi mágico encontrar em você uma certa irmandade entre nossas almas que só depois de algum tempo descobriríamos serem tão diferentes e distintas.E não teria como recusar teu pedido para ficar um pouco mais, para passar ali contigo o pôr e o nascer do sol. E o que eu queria era a eternidade dos dias ao teu lado.
DAS Diferenças
E tudo que é igual encontra em si uma diferença; não existe igualdade absoluta. O desejo maior não me deixava... Não nos deixava perceber que éramos iguais nas intenções e diferentes nos meios que nos encaminhavam ao final comum.Você não suportava o fato de estarmos longe, de nos vermos apenas quando o meu senhorio desse permissão. Você, malcriadamente, exigia minha presença diária para aplacar tua tão grande e insaciável sede de amor e atenção. Mesmo eu te entregando o oceano você suava mais e mais e, viciado nessa droga, me fazia buscar tua sede em lugares cada vez mais remotos e longínquos.Eu te via dançar com os feiticeiros, com seus badulaques, seus ritos, suas místicas e me admirava de te ver ladear; ver tuas voltas, seus rodopios, teus suspiros. Como eu era feliz por te ter feliz. Dança minha amada, dança e gira, roda ao som dos cantos, dos quadros, das preces; enlouqueça, entra no teu transe e me encontra e me ponha doido por você.
DAS Promessas
Pediste a benção aos sacerdotes; você me disse que queria a benção de quem mais lhe importava. Te digo que o queria era de fato a aprovação de quem, sabia você, jamais entregaria o teu desejo, jamais aprovaria nossas realidades distintas.Para você era tudo muito fácil, era tudo mamão com açúcar. Me fez entrar na sua corte, me fez te servir pessoalmente, me colocou nos melhores postos, já não me deixava junto aos outros serviçais. Me fazia desfrutar dos teus obséquios e eu te amava cada dia mais e já não me lembrava da minha lama, da minha raiz, da minha terra, da minha cerne. Eu queria ser qualquer coisa que desejasse para mim. E fui tudo ou quase tudo. Só não fui o que não deu, o que não aprendi a ser.E então cai em desgraça, comecei a ser preterido talvez devido aos comentários que lhe fazia na intimidade. O que lhe segredava poderia soar como horrores de guerra. Já não era mais o anjo barroco que me alcunhara. A cada dia deixava de ser alvo de seus olhares, de seus suores. Os suspiros que desejavam começaram a se enfadar e tornavam-se bufos e uivos. Desviava-se de mim como um rato que desvia da ratoeira, como se eu fosse te prender ou te ferir; talvez fosse isso mesmo que pensava de mim.
DA Ira e Raiva
Como odeio o que te entreguei, o que te dei. Na verdade tenho raiva de ter te entregado a única coisa que eu tinha. Penhorei na tua casa os meus sentimentos e perdi. Fui à banca rota. Dizem por ai que em breve serei leiloado. Mas já estou vendido!Tenho raiva dos meus desejos, dos planos que tracei confiante de que tudo aquilo que me havia dito, era eterno e verdadeiro. Mudou! O eterno acabou! Raiva da vida que mudei, dos amigos que deixei, dos pensamentos que apaguei, dos prazeres que degenerei, das vidas que deixei para trás. Raiva de fazer tudo certo e errar a praia; nadei para uma ilha remota e acabei sozinho no paraíso.Do que me adianta a riqueza se não houver alguém a lhe invejar, do que me adianta a beleza se não houver alguém a admirar, do que me adiantam as promessas se não se tem por quem as cumprir. De que me adianta ir adiante se o futuro já ficou para trás?Raiva de minha retidão, de minha correção, de minha moralidade...Amor da minha superação
DO Novo Amor
Mas a tempestade trouxe a água que o solo árido precisava para renascer e brotar com força e vigor. Tuas águas regaram, tuas sementes germinaram.Superei meu velho homem, minhas cadeias já não me prendem, seus vilões são meus mocinhos e com eles fugirei no cavalo branco que um dia foi teu. Essa é a paga pela promissória que me deu.Amanhã a esta mesma hora estarei longe dos teus olhos e de teus mandados. Amanhã serei o mais livre dos livres, serei meu próprio escritor e dono de mim mesmo. Minha alforria está pronta e sob sua mesa. Não quero que a assine; não preciso que consintas.Sirva-te com o que tiver de melhor, se é que há um melhor. Rogo que haja; seria penoso demais e demasiado humilhante saber que entregaste a teus inimigos as chaves da tua própria residência e fizeste dela tua cela.Enquanto isso eu vôo, qual avião, qual pássaro, qual pensamento... Vôo para longe, bem longe.


