12.31.2007

É fim de ano. Quase toda a cidade se mudou temporariamente para o litoral, deixando os coitados carangueijos em polvorosa dada a invasão que se vê. Pobres bichinhos!

É fim de ano, um bando de descamisados furam as filas com calma e paciência e lhe interpelam com furia mortal quando perguntados do motivo por tal "ato"... Eles te olham com olhos de fome, como se fossem avançar e lhe arrancar o couro e todos alí, torrando sob o sol: raiva, sol, suor e cerveja! Que Fim de Ano!

Outros tantos famigerados, ou fami-abortados seria um termo melhor aplicado, ligam seus potentes sons automotivos e Viva a Boa Bunda Balançante Brasileira; é um Ode ao par de glúteos. E seguem eles, orla a dentro, disseminando os convites ao prazer fácil, musical em última análise.

Ahhh, os maiós; maiós toucinhos, recheados de gorduras, afinal beldades só usam maiós nos concursos de beleza. Os trajes de banho que antes eram feitos para cobrir as vergonhas e a nudez, hoje se tornaram apenas um acessório pra deixar uma marquinha de sol, que está em vogua, já que os maiós ganharam status de "segura-carnes". É um tipo de espartilho praiano, fazendo analogia, é como se fosse o amor como descrito na Bíblia: o maió tudo aguenta, tudo espera, tudo suporta, é paciente... e é, invariavelmente, acompanhado de outros itens suínos: presunto e lombinho, que se não estiverem dentro do dito maió, estarão fora, em alguma bolsa térmica Sadia, que uma portadora de maió carrega à tira colo num doce balanço a caminho do mar.

E a cor do Reveillon não é branco ou prata, é vermelho: Vermelho camarão! Um masoquismo de se expôr a queimaduras de 1º ou 2º graus como se isso fosse item de atração sexual. Não sei você, caro leitor, mas não me sinto atraido sexualmente por pele assada: nunca me apaixonei por frangos de padaria, lombinho recheado... Sim, os como, mas com garfo e faca; não os levo para jantar, comprar presentes... Senhores, por favor! Tudo isso para quê?

"Não pega em mim, estou ardendo" É óbvio! O que queria depois de 3 dias em exposição aos raios nocivos do sol a pino? e alguém ainda diz: "Peguei tanto Sol!". Permita-me corrigir-lhe: o sol é que te pegou e te pegou de jeito. De 2 a 3 semanas após esse suplício, em meados das festas pré-carnaval, aquele toucinho começa a descamar, aí é a visão do cão; cão assado subentenda-se. Cada abraço um pedaço de pele gruda em nossos braços. É um tal de pele caindo pelos cantos. Santa Madre!


À parte esses fatos tão corriqueiros da vida de todo bom proletário brasileiro - paulistano - este novo ano há de ser um ano que ficará para a história, evidentemente porque todo ano é história, mas aos que acreditam nas superstições, 2008 é ano 1, inicio de tudo. Já que muita merda aconteceu em 2007, se em 2008 não melhorar, ah eu me mudo de planeta. Mas eu creio que será diferente, eu quero crêr, eu preciso crêr.

Algumas pessoas se espantam em saber que passo, Natal e Reveillon, quietinho em casa; não dou as caras na janela. Tenho supersticões nessa época; teho para mim que o que for feito nos primeiros minutos do ano que se inicia, desencadeará uma série de fatos de igual teor, proporção e circunstâncias ao longo de todo o ano vindouro, por isso me fecho em copas, taças e garfadas e cultivo o introspecção e meditação para começar o novo ano em paz.

Promessas para 2008:
  • O Sé vai tomar juízo e se divorciar do general;
  • Eu devo casar - minha mãe espera ansiosa;
  • Carnaval em Salvador, Sé e eu, para comemorar o divórcio ou a fuga, se for o caso;
  • Aniversário de 23 anos e meio, ano que vem faço 25, hehehe, ai meu Deus, to ficando velho!;
  • Comprar uma lavadoura de roupas;
  • Comprar sofás pra essa casa;
  • Comprar mais Vinhos e Cervejas;
  • Comprar mais petiscos para acompanhar os vinhos e as cervejas;
  • Aumentar 4 quilos neste corpo;
Alias, isso era uma lista de promessas, não de compras....

Penso, logo, D-existo!

12.27.2007

TEM 1 TEXTO AKI - SELECIONE E VEJA
É um saco a obrigação do Natal. Compreendo que há uma infinidade de pessoas que irão discordar, porém acho uma safadeza sem tamanho pessoas com as quais mal conversamos no ano todo virem nos desejar um "feliz natal". Vá te coçar! Ahhh, faça-me um favor!

É o ápice da falta de vontade sincera, da obrigatoriedade, da falsidade. Há quem não dê "bom dia" ao porteiro, mas o Feliz Natal, esse não escapa. É como se o fato de se desejar o "feliz natal" aos outros nos garantisse o mesmo em nossas vidas, como uma apólice cuja valia se dá em função do que enviamos aos outros. É como as pragas - chega de praga - que são as correntes eletrônicas: se vossa mercê não repassar este e-mail em 3 minutos... bla bla bla. É como um financiamento: para se ter um "feliz natal" é necessário que haja o pagamento do desejo de um "feliz natal" às outras pessoas, não importa quão falso seja o desejo.

Sabe aquele cara chato de galoxa, aquela colega de trabalho, alcoviteira que só ela, aquele parente, mais folgado que colarinho de palhaço... Tem como ter um feliz natal com gente assim? Isso é maldição... Natal com essa raça! Afff! Isso quando eles não inventam de comerem tudo o que tem na sua casa, incluindo aquilo que você nem mesmo havia oferecido.

Fico pensando nas pessoas que vejo lá no ponto do ônibus: como eu poderia ter um feliz natal e desejar aos outros se há tanta gente que só precisa de alguém com quem conversar!? Ahhh, eu sei.. deve estar pensando: "como? eu não tenho paciência de ouvir morador de rua. São todos loucos!" Loucos somos nós que não queremos bem uns aos outros e nos sentimos na obrigação de desejar feliz natal.

Tem gente que tem que se ferrar. Feliz Natal pra quem? Tem outros que usam, abusam e ainda merecem Feliz Natal! Pros diabos com seu "Feliz Natal"

Os Estupradores, os assassinos, os abortados, os maledicentes, os ufanadores, os sem-vergonhas, os salafrários, os deputados... Feliz Natal? No duro?

O Valtinho deu idéia de Natal que vem, nós irmos aos hospitais levar brinquedos pra criançada que está internada. Isso sim é Feliz Natal.

Agora... Eu não quero dar feliz natal pra todo mundo. Eu não sou tão bom assim, e nem quero que todos sejam tão felizes assim, há de haver uma pitada de infelicidade e sofrimento pra temperar a receita da vida. O sofrimento alheio é vistoso aos nossos olhos, quer você concorde ou não!

12.23.2007


E a gente passa pela Augusta admirado, pasmado de quantas luzes cabem numa só fachada, isso antes do Kassab existir – bons tempos aqueles. Eram tempos em que ser puta era coisa nobre, era profissão difícil donde haveria de Ter muita vontade, muita na faca amolada; era não se preocupar com silicone, roupa chique... onde a boêmia era a companheira de uma vida completa, e a noite, mãe zelosa, protegia suas filhas. Época em que a disseminação gonorréica não era tão evoluída quanto hoje. Ser Puta antigamente era dignificador: qual homem não usufruiu de seus serviços em dado momento? Alias, qual menino não juntava moedas só para ver os peitos de vacas profanas – vacas sacramente profanas, já que na Índia vaca é deusa. E qual destes não sonhava, se melava pensando nas meretrizes da Augusta ou da folhinha da borracharia do zelão? Praga de Puta é Gay... Não come mais nada.. só dá... dá trabalho, “dá seu bom edí”... “dá Elza, Aidê”... Praga de Puta é Castidade! Promiscuidade, não! Puta é puta, não é vagabunda. Que história é essa de desdignificar a classe? Classe essa que colocou seus filhos – os tais filhos da puta – no INSS... afinal filho de puta é acidente de trabalho, ´epor natureza um erro de percurso. Pura falta de cuidado materno.
Praga de puta é foda! Não... Não é fuder, é foda de doer... Não... não pense dessa forma... é foda da ruim, com areia... Mãe pegando no flagra! Praga de Puta é religiosidade... Não fossem os padres o mundo seria mais feliz... Que puta os pariu? Alguma puta virgem, quiçá!

Praga de Puta Não Pega! olho-gordo, esse é fatal; olhar-de-seca-pimenteira nem batendo quatro vezes na madeira dá jeito de apaziguar a mandingua. Mas Praga de Puta não... é coisa funesta, não pega....Paga!

Putas que parem são pragas
Putas paridas são pragas
Praga de puta é praga
Filho DEPUTA - DÓ!

PPNP E À BAIXO O CALÇÃO!

12.21.2007

COMPRA-SE OURO

E quando a gente a sai da estação do metrô Sé a gente vê aquele mar de placas suspensas: vende-se ouro, compra-se ouro, receita de remédio, atestado médico, oculista, analista, advogado criminalista... é uma porção de serviços à espera de algum pobre coitado, ou não tão pobre mas em decadência, afinal um dia teve ouro, ou então em ascensão já que sua busca por Serra-Pelada se encerrou na escadaria do Metrô Sé.

E depois do ouro vem o mar de pregadores. Uns dizem que Deus matou o Cazuza, a Cássia Eller, a Xica da Silva... Mas Deus já não é o responsável por tudo o que acontece, de bom ou de ruim, na humanidade? Tento entender a razão da liturgia: gritar, socar a Bíblia, gritar mais um pouco, falar do diabo e socar a Bíblia novamente, de modo que penso que, ou estão com raiva da Bíblia – quase nunca os ouço lendo os versículos tão cheios de “amor” – ou são parte do percentual semi-analfabeto que encontram na religião uma porta de redenção d’uma vida tão sofrida. É uma forma de auto-negação da realidade.

A Bíblia quando descreve o paraíso, parece descrever a Sé: são ruas de ouro, cheia de fiéis... mas então me lembro que as escrituras não citam os mendigos. Começo a pensar que o Paraíso é o país que o Lula quer criar. Eita inclusão social porreta, essa!

E depois??? Vem os mendigos, oras, o que mais acha que se pode encontrar na Praça da Sé, além dos ourives e pregadores? Lá vem os mendicantes, os pedintes, os que sonham com uma lata de cola imensa, só pra si... Lá vem eles! A gente abaixa a cabeça na intenção de não participar desta sociedade excludente. A gente atravessa o olhar, passa para outro lado, olha a catedral, tudo para não ter que dizer “não”, na verdade fazemos tudo isso para não sermos importunados por qualquer um dos habitantes da dita praça. E dizem ainda, uns e outros, que eles não têm o que comer, que não têm o que vestir, que não têm onde morar. Te pergunto então se é alguém da oposição que espalha urina pela cidade. E o fedor de excrementos? Tu vai dizer que é de onde? E há quem diga que mendigo não come. Come sim! Come e dá fim.. e Viva os incensos dos japoneses da liberdade, não “belezura” que limpe essa cidade dos odores alheios.

São Paulo é incrível! A praça é onde Sé-encontra de tudo e para todos, onde Sé fizeram manifestações e passeatas, onde Sé ganhou direito a voto e veto, onde Sé vibrou com as vitórias da Seleção, SÉ SÉ SÉ.... tudo Sé resumo à fé que se tem na Sé.

E ainda tenho que falar sobre a praga dos pigmeus espaçosos que ocupam essa cidade. Mas essa é outra história.

12.20.2007

E tudo mudou...

O rouge virou blush
O pó-de-arroz virou pó-compacto
O brilho virou gloss

O rímel virou máscara incolor
A Lycra virou stretch
Anabela virou plataforma
O corpete virou porta-seios
Que virou sutiã
Que virou lib
Que virou silicone

A peruca virou aplique, interlace, megahair, alongamento
A escova virou chapinha
"Problemas de moça" viraram TPM
Confete virou MM

A crise de nervos virou estresse
A chita virou viscose.
A purpurina virou gliter
A brilhantina virou mousse

Os halteres viraram bomba
A ergométrica virou spinning
A tanga virou fio dental
E o fio dental virou anti-séptico bucal

Ninguém mais vê...

Ping-Pong virou Babaloo
O a-la-carte virou self-service

A tristeza, depressão
O espaguete virou Miojo pronto
A paquera virou pegação
A gafieira virou dança de salão

O que era praça virou shopping
A areia virou ringue
A caneta virou teclado
O long play virou CD

A fita de vídeo é DVD
O CD já é MP3
É um filho onde éramos seis
O álbum de fotos agora é mostrado por email

O namoro agora é virtual
A cantada virou torpedo
E do "não" não se tem medo
O break virou street

O samba, pagode
O carnaval de rua virou Sapucaí
O folclore brasileiro, halloween
O piano agora é teclado, também

O forró de sanfona ficou eletrônico
Fortificante não é mais Biotônico
Bicicleta virou Bis
Polícia e ladrão virou counter strike

Folhetins são novelas de TV
Fauna e flora a desaparecer
Lobato virou Paulo Coelho
Caetano virou um chato

Chico sumiu da FM e TV
Baby se converteu
RPM desapareceu
Elis ressuscitou em Maria Rita?
Gal virou fênix
Raul e Renato,
Cássia e Cazuza,
Lennon e Elvis,
Todos anjos
Agora só tocam lira...

A AIDS virou gripe
A bala antes encontrada agora é perdida
A violência está coisa maldita!

A maconha é calmante
O professor é agora o facilitador
As lições já não importam mais
A guerra superou a paz
E a sociedade ficou incapaz...

... De tudo.

Inclusive de notar essas diferenças

Luis Fernando Veríssimo

12.15.2007


Estou procurando como começar a escrever essas linhas e não encontro meios de fazê-lo, pois me falta proverbial eloqüência na descrição numa linha de pensamento racional. Ouço os “spirituals” americanos, pensando nas grandes negras carnudas, com seus chapéus de laços e fitas, pulando em transe, em êxtase, dançando para o Senhor, o que me faz lembrar dos tempos em que era um destes que arrebatados pelo Divino, se lançavam nesse mar de tranquilidade do qual não há palavras suficientes em qualquer lingua para dizer com exatidão quão grandiosa é a experiência, que é muito mais que pura e simples experiência, é vivência...

Há um ditado que diz que para sermos lembrados para sempre basta sermos gênios naquilo que fazemos e realizarmos algo notável. Hoje penso que isso tem lá seu fundo de verdade, porém é mais simples do que parece.

Tenho comigo uma intimidade profunda com a chuva, com o frio, com o melancolismo. Este estado climático e eu somos como que feitos da mesma matéria-prima. Quando se pensa em solidão, solitude, melancolia, se pensa em noite de frio, de garoa, noite de São Paulo. Este sou eu. E como as noites de São Paulo também me perco em mim mesmo...

Dia desses encontrei-me frente a minha lápide. Que cena! Amigos, meus caros e saudosíssimos amigos... Que vontade de tudo, que saudade de nada... quanta coisa deixei de fazer, quanta coisa eu poderia não Ter feito. Quantos arrependimentos? Poucos; sei bem a minha responsabilidade com meu destino. Não tem quê de chorar leite derramado. Foi-se e pronto. Tenho saudade das coisas que não fiz, das pessoas que não amei, das eternidades triviais, tenho saudade da taça de vinho sorvida no vinagre da solidão quando a alma gritava e bradava por amor... Quantas lágrimas não choradas, quantos risos contidos lendo as linhas do livro por receio de me tomarem por bobo. E para quê? Para nada...!

Alguns dos convivas sabem de meu destino já escrito, pois eu escrevi cedo meu destino e Deus avalisou com registro em cartório do céu. Portanto, passagem comprada, como disse em tempos remotos, não nasci para este mundo, meus caros, vim para contestar e testar pensamentos além da compreensão meramente humana. Mas me sinto feliz. As lágrimas me vem aos olhos neste momento, por sabe que a voz de Aretha será algo que ouvirei poucas vezes, mas ouço com tal intensidade que a gravo fundo em meu íntimo.

Meus mui amigos, espero que algum dia esta missiva lhes seja esclarecida e as linhas miúdas ganhem esclarecimento e cores nesta noite fria...

Lembrem-se de mim como o que viveu.. Viveu intensamente para dizer que viveu sim... Escolheu, aproveitou, embebeu.. e assim partiu... embebido de super dose da Terra, levou consigo lembranças e agora vai à Pássargada, nas terras onde cantam Sabiás.

Lembranças aos seus e seus filhos, diga-lhes que não se furtem a conhecer um pouco mais deste que lhes dedica carinho e lembranças... Pois é o que lhes dedico: Saudosas Lembranças Póstumas!

Gostaría de escrever mais, de encher de linhas e textos, de incitar-lhes emoção, tocar o íntimo, mas deixo isso aos poetas, pois já poeta não sou, muito menos pretenso... Sou um dos loucos, que como disse o de lá, Louco que Sai do Mundo para entrar na História.

PENSO, LOGO D-EXISTO!

12.07.2007


MENDIGO ORIGINAL


E estava lá ele denovo:

- Dá uma moedinha, que minha mãe foi pra Maceió e me deixou sozinho sem comida. Dá uma moedinha pra tomar café!


Todo dia era a mesma ladainha, talvez assim fosse dado a proximidade com a catedral. Quem sabe isso não amoleceri o coração empedrado dos concidadãos da cidade?! Amolece nada! Esmola não é panacéia; é vício, síndrome urbana de que tudo vai mal na sociedade.
Os acenos negativos tácitos. Balançar cabeça era mister. Mas e o mendigo que não entende, deve pensar: Será que é louco? Não fala nada, só balança a cabeça.

- Dá uma moedinha, que minha mãe foi pra Maceió... (e rezava assim)

Uma cocota lhe impediu a passagem, não sei se para mostrar sua "superioridade" social ou o que, só sei que lhe veio resposta ao ato.

- Tem educação não, é?

Ela desflecha verborréia de escrotice. Só iso me faz conseguir descrever com exatidão o susto que os cavalheiros filhos de nosso senhor, tiveram ao ouvir as doçuras e belezas que tal cocota proferia.

- Que boca, hein, moça! Tem educação não? Reiterou o maltrapilho como rebatendo nas mais alta classe a baixeza que a donzela "de la calle" lhe disssera. Mas a assunto não parou por ai. Ele a mediu como se a despisse não com o desejo carnal da possessão, mas para lhe espalmar as carnes numa tentativa de corrigir os erros de postura, dado que cocota não trata assim. Talvez fosse dama da tarde, dama da tarde só se preocupa com lençol e réis. Linguajar baixo e indiscreto.

Mendigo que se preza tem garbo e elegância. É um viver à margem na medida do que é necessário. Mendigo original não consome mais do que a vida lhe pede para no corpo sujo manter-se. Princípío básico é ser coadjuvante na cidade. É ter lua como lamparina, Sol como despertador, Céu como telhado e estrelas como passa-tempo. É correr da chuva pra não molhar a vida toda. É ficar na espreita do Antunes da mercearia, coisa boa ele manda pro lixo. É ter Antunes a quem pedir auxílio. É inútil mais que isso. Não há onde estocar. Consuma-se hoje o que o hoje lhe propõem, amanhã não é certo.

Isso sim é bom, não ter em que pensar... ouvir e ter a todos como irmãos. É não precisar amar, basta estar lá. A lembrança já cura tudo ou talvez não. A lembrança não existe.

Penso que ser mendigo é viver a bel prazer, contar com a sorte de ser mais um amanhã; viver hj como se tudo se acabesse em minutos. É um sei lá o que, com lugar nenhum em não sei onde! É se perder em três passos. Mendigo precisa de amor? Amor social certamente não é! Tem educação não?

Olhos estrábicos, farrapos, corpo sujo e minguado, cabeça pendendo para o lado como os olhos o faziam, mirada distante para além da alma em outro mundo.

- Não tenho, filho!
- Tenho não!

Dá uma moedinha, por favor, que minha alma me deixou sem comer... só preciso tomar um café!


12.05.2007

Dia desses a gente se reencontra. Tudo outra vez: é suor, calafrio, tremedeira, borboletas na barriga, voz presa na garganta querendo dizer teu nome e as juras que um dia te disse. E caí leve com as gotas da chuva. Te desejaria levar ao lugar distante, no meio do nada, com cheiro de mato, campina molhada de orvalho, cheiro bom de nós dois. Ah que saudades de quando me chamavas Teu.. Quando “pequeno” era nome propício de um momento sublime... quando numinoso era teu olhar no meu..

Saudades...

Ouvir tua voz a bendizer o dia que se fazia depois de uma noite inteira de corpo unidos. Me vem à lembrança aquele dia em que ficamos a cultivar o ócio de amar, a andar por entre árvores, tu como profeta... prevendo o início de um fim trágico, não por morte abominável, mas pela dor de amar e se ressentir. Ah, morena das canções. Me fosse possível, te daria lua, estrelas, planetas, luzeiros, vaga-lumes, para que pudésseis enfeitar teus cabelos; e te banhar; banhar com as águas do mar azul dos lados de lá e perfumar teu corpo mouro com as mais frangrantes flores dos jardins suspensos que havia em Babilônia que hoje tu chamas de lar.

Fosseis Deusa, te serviria em Delfos... fosses Ísis, terias em mim teu sacerdócio real... Mas humana que és, tens em mim teu amor; amor que negas a um bem como o meu.

E hoje penso, declino-me aos pés de estátuas que não me ouvem ou me vêem, apenas aceitam minhas libações, mas para ti reservei o incenso mais agradável. É teu, oh minha pequena, meus cantos e louvores, é teu meu amor, minha menina. Meus prantos, meus clamores, minhas noites de copioso choro, meus jejuns, meus sacrifícios, meus pecados... é tudo teu... há de ser teu tudo que sou, pois fui forjado em teu seio, teu leite alimentou-me, teu calor me abraçou e hoje não vivo senão por ele; por este amor que se faz mito, demência necessária à minha sobrevivência.

Enquanto não teosofíco este amor, sub-humano amor, só me resta levar flores a outros altares até que tu me recebas de volta como teu... só teu, por ti, em ti, para ti!

Ne me quitte pas...
Não me deixe
Devemos esquecer
Tudo pode ser esquecido
Que já tenha passado
Esquecer os tempos
Dos mal-entendidos
E os tempos perdidos
Tentando saber como
Esquecer as horas
Que as vezes mataram
Com sopros de porque
O coração de felicidade
Eu vou te oferecer
Pérolas de chuva
Que vêm dos países
Onde não chove
Eu vou cavar a terra
Até a minha morte
Para cobrir teu corpo
De ouro e luzes
Eu farei uma terra
Onde o amor será rei
Onde o amor será lei
Onde tu serás rainha
Não me deixe
Eu inventarei
Palavras sem sentido
Que tu compreenderás
Eu te falarei
Sobre os amantes
Que viram duplamente
Seus corações incendiarem-se
Eu te contarei
A história deste rei
Morto por não poder
Te reencontrar
Nós freqüentemente vemos
Renascer o fogo
Do vulcão antigo
Que pensamos estar velho demais
Nos é mostrado
Em terras que foram queimadas
Nascendo mais trigo
Do que no melhor abril
E quando vem a noite
Com um céu flamejante
O vermelho e o negro
Não se casam
Não me deixe
Eu não vou mais chorar
Eu não vou mais falar
Eu me esconderei lá
Para te contemplar
A dançar e sorrir
E para te ouvir
Cantar e então rir
Deixa que eu me torne
A sombra da tua sombra
A sombra da tua mão
A sombra do teu cachorro